terça-feira, 12 de abril de 2011

Convite para o lançamento do livro "Anilina, Ziguezague e Désirée", de João Paulo Hergesel

A Editora Patuá - Livros são amuletos - e a Biblioteca Pública Municipal de Alumínio convidam a todos para o lançamento do livro de contos "Anilina, Ziguezague e Désirée", de João Paulo Hergesel.

O lançamento será realizado dia 30/04 - sábado - às 19h - na Biblioteca Pública Municipal de Alumínio - Antônio Pereira Ignácio - Rua Albino Henrique Duarte, 59 - Alumínio - SP. A entrada para o evento é gratuita e o livro estará à venda pelo valor de R$25,00

Anilina, Ziguezague e Désirée, de João Paulo Hergesel

Sinopse:

A combinação de três das características mais marcantes do autor – inteligência, criatividade e bom humor – deu origem às situações inusitadas e hilariantes que você, leitor, encontrará nos contos de Anilina, Ziguezague e Desiree. (...) prepare-se para mergulhar em um mundo surreal de gatos empresários, mimeógrafos com depressão, personagens que saem de seus livros, caroços de abacate aterrorizantes, bússolas falantes e outras situações que só poderiam ter saído da imaginação única e surpreendente de João Paulo Hergesel.

(Aryana Christine Ceretta de Araújo)

Por que ir?


Sobre o autor:
João Paulo Hergesel, autor do livro Anilina, Ziguezague e Desiree, nasceu em 1992, coincidentemente, no Dia do Escritor (25 de julho). Reside na cidade de Alumínio/SP, onde é colunista de dois jornais locais e estagiário em uma escola da rede pública. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmente às literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais.

Sobre o livro: "Anilina, Ziguezague e Désirée", livro de estreia de João Paulo Hergesel, é uma obra que realmente transporta, nós os leitores, para uma fantástica viagem imaginária. Entretanto, mais do que simplesmente uma viagem na imaginação, este é um livro que vai alterando as cores e os caminhos de nossa realidade. Cada palavra, cada página, cada história mostram que se não é um livro sem fim, é um livro que desdobra e desenha novos caminhos. Retornar dessa leitura talvez seja uma nova viagem, uma nova vida.

Sobre a Editora: Com o claro objetivo de editar gratuitamente livros de novos autores de qualidade, com excelência gráfica e, principalmente literária, a Editora Patuá - Livros são amuletos - é uma alternativa no mercado editorial brasileiro.

Sobre o local do evento: Criada há mais de 40 anos (o Município de Alumínio foi emancipado apenas há 18 anos), a Biblioteca Municipal de Alumínio - Antônio Pereira Ignácio - Rua Albino Henrique Duarte, 59 - Alumínio - SP - conta com um acervo de mais de 18 mil livros, um número excelente para uma população de cerca de 17 mil habitantes (CENSO/2010) e está instalada em um prédio moderno e acessível. A Biblioteca será um palco perfeito para o lançamento de um escritor que, além do trabalho artístico, está engajado em divulgar a literatura brasileira, seus escritores, eventos e espaços. Participe!

sábado, 26 de março de 2011

Suicídio

Tanto a armação de dentes artificiais quanto a construção feita sobre um rio ou lago recebe o nome de ponte. Minha dentista já está acostumada a agir como uma arquiteta e colocar inúmeras dessas próteses odontológicas nas bocas dos pacientes. No entanto, não tenho a mínima noção sobre o assunto. Talvez fora por isso que resolvi subir no peitoril do segundo significado.

Com o vento batendo em minha face, subi na proteção construída ao redor da ponte e fiquei em pé. A população se aproximava, aos montes, na praça municipal, para ver o que o garoto de camiseta verde-exército iria fazer. Uns até arriscavam palpites:

— Acho que ele vai apresentar uma nova modalidade de mergulho...

— Deve ser uma campanha publicitária de algum novo produto; jogada de marketing!

— Aposto que ele vai anunciar sua candidatura a vereador!

Outros, porém, iam além e davam seus recadinhos:

— Seu louco, desça daí... A vida vale a pena ser vivida!

— Faça o que o seu coração manda, mas lembre-se: sempre há aqueles que te amam.

— Pula! Pula!

Inclusive, estavam presentes os mais ajuizados, que naquele momento misturavam bom senso com aflição e gritavam aos berros:

— Chamem a polícia! Chamem os bombeiros!

Olhando o imenso lago sob meus pés, abri os braços, fazendo com que o sol formasse uma cruz no chão da ponte, com minha sombra. Nesse momento, pensava em me atirar, até que ouvi uma voz conhecida, de uma grande amiga:

— O que você está fazendo? Não cometa nenhuma besteira.

— Não é besteira nenhuma... É isso o que eu realmente quero! Não sou mais importante para este mundo; a garota pela qual estou apaixonado nem mesmo lembra que eu existo... Até mesmo as margaridas dizem que ela malmequer.

Jamais lhe diria que essa tal paixão era ela própria. Era preferível morrer do que receber uma rejeição.

Ao passo que eu falava, ela, tirando seu salto, subia no parapeito, onde se sentou. Tentei mostrar-me irado:

— Não se aproxime e nem tente me deter, senão eu me jogo!

— E você não ia se jogar de qualquer forma? Então, tanto faz minha presença aqui ou não.

Ela, de fato, tinha bons argumentos, que me calavam e desorientavam-me ainda mais.

— Estou decidido: vou me atirar e livrar-me de toda a dor!

— Ou seja, você vai duplicar a minha.

Por um segundo, fiquei imóvel, tomando cautela para não perder o equilíbrio, enquanto punha seus pensamentos em ordem. A maneira curta e grossa, mas terna e melindrosa, de falar de minha amiga, ainda que tropeçando nas palavras, fez uma lágrima rolar pelo meu rosto.

— Você poderia me ajudar a descer?

Esse pedido foi um alívio para todos: para a idosa, que abraçava seu gato, depositando nele todo seu afeto; para o mendigo que olhava admirado um menino, cuja vida era perfeita em relação a dele, quase cometer um ato que ele jamais teria coragem de fazer; e para a repórter que, em frente à câmera, registrava cada acontecimento, segundo a segundo.

No entanto, nada saiu como esperado. Uma pisada em falso e, sem querer, meu pé escorregou. O grito de susto da multidão se misturou com o de desespero da minha amada amiga. Tentei, de alguma forma, me segurar, mas era praticamente impossível. Tudo parecia estar liso. De repente, ouviu-se o barulho de um corpo se colidindo com a água.

O povão prendeu a respiração e arregalou os olhos; não podiam crer que assistiram a uma cena de suicídio — ou homicídio — de alguém tão jovem. Entretanto, bastou que eu levantasse a cabeça para tomar fôlego e ficasse em pé, para que vissem a água do raso lago bater em minha cintura.

— E, corta! — gritou a jornalista, que agora tinha uma nova matéria para exibir na sessão de “vídeo cacetadas”, matando-me de vergonha.

sábado, 19 de março de 2011

Anestesia


Estava de boca aberta. E não era por aquela que fazia meu queixo cair; era por outro doce. Um que com certeza deixou uma pequena parte sua num estreito intervalo entre dois molares — lugar onde nem a escova nem o fio dental alcançaram — e resultou numa enorme cárie. Na verdade, essa era apenas uma das cinco desintegrações contidas em meus dentes.

Numa última consulta que havia feito à dentista, há exatamente três dias, ela resolveu começar a tratar dessa tal cárie. Primeiro, anestesiou o local; em seguida, com um aparelhinho de barulho perturbante, abriu uma cavidade no dente, onde aplicou a tão famosa guta-percha, que muitos chamam de “massinha” ou algo do gênero.

— E então, doeu? — perguntou assim que tirou o sugador da minha boca.

— Não. Não senti absolutamente nada — menti.

— Ótimo! Eu coloquei uma pré-obturação. É temporária, mas deve aguentar por cerca de duas semanas — como é possível perceber, ela também mentiu.

Agora, após a queda da massinha, a doutora pôde enfim perceber que meu dente pedia desesperadamente a substância metálica, a fim de evitar que outros resíduos adentrassem a concavidade. E foi trazendo a imensa seringa na direção da minha boca, que ela aconselhou:

— Não vai doer nadinha — mentiu outra vez. — Mesmo assim, esqueça a seringa e pense em outra coisa.

Visando que a doutora não era nem um pouco animadora, tentei desviar meus pensamentos. Mas não sabia em que me concentrar... Nos pedreiros que construíam um novo prédio, que podia ser visto através da janela do consultório? Na chatice que seria a apresentação de balé de minha irmãzinha, logo mais a noite? Na nova música da minha banda preferida? Foi quando senti a forte picada da agulha, penetrando em minha gengiva, que imaginei um mestre de obras trajando um vestido de bailarina e dançando hip hop. É bem provável que eu tenha sido o primeiro paciente a rir, enquanto era anestesiado.

— Prontinho! — anunciou, após a utilização da pomada antibacteriana, da resina dentária e do laser secativo.

Meu maxilar agradeceu. O coitado não tinha mais forças para se manter aberto.

Já estava prestes a sair do consultório quando algo tremeu em meu bolso. Era meu celular anunciando a chegada de uma mensagem de texto da garota que eu amava, mas que nunca me dera bola.

Ao esbanjar um breve sorriso com o SMS, a dentista, também sorrindo, me cutucou:

— Alguém especial?

— Não. É apenas uma amiga. Nada mais.

Ficamos quites, de novo!

Com a sensação de boca inchada, o que é mais do que normal ao sair do consultório de um dentista, me despedia da secretária. Nisso, a um asfalto de distância, a menina que tomara conta do meu coração se despedia da manicura e da cabeleireira.

Assim que saí da clínica, ela saiu do salão de beleza. Ambos nos surpreendemos um com o outro. Cruzando a rua, ela veio em minha direção.

Sem dizer uma única palavra, aproximou seus lábios dos meus e deu-me um inesperado e ardente beijo.

No momento, não sabia se ela percebera o quão eu estava apaixonado e quis me dar uma chance, ou se ela sentia o mesmo por mim. Mas não interessava. A única vontade que eu tinha era aproveitar aquele instante, pois ele poderia não voltar a se repetir.

Em suma, tudo seria perfeito, se não fosse o fato de eu não sentir nem meus lábios, nem os dela, devido à anestesia.

sábado, 12 de março de 2011

Minhocas na Cabeça


A perspicácia do Verão foi calorosa. Na distribuição das estações, soube escolher o melhor período, obteve a sorte de trabalhar com a companhia do Sol e ganhou a oportunidade de receber o ano com um sorriso radiante de boas-vindas, bem como a de lhe dizer adeus com um ardente beijo de despedida. Pode, inclusive, se gabar por acolher os três maiores feriados, Natal, Ano Novo e Carnaval. Além de bancar o bonzinho com os jovens por ter abraçado, também, as férias escolares.

Às vezes, porém, o que deveria ser descanso acaba se resultando em tédio. Na chácara do avô, nada para fazer, ninguém com quem falar — nem as três filhas da empregada, de idades consecutivas aos doze anos dele, arriscavam conversa. Para se livrar do contrastante frio do desprezo, distanciou-se da casa e adentrou uma trilha abandonada, onde seguiu até encontrar um riacho.

A grama tão alta parecia estar de pé. Ele deitou o corpo sobre ela, as mãos se fizeram travesseiro, os olhos admiravam as nuvens que bailavam no cenário azul do céu. Coisa mais chata, mas servia para passar o tempo e se esquecer do desejo alucinado de chupar sorvete. A bermuda de poliéster e a camiseta sem mangas deixavam à mostra as pernas e os braços, que já carregavam os primeiros fios da puberdade. Passou quatro horas ali.

Percebeu ter encontrado algo mais que um lugar bonito: descobriu o aconchego. Sentia-se relaxado, a brisa morna fazendo-lhe cair no sono. As pálpebras pesavam, mas antes que elas se fechassem, a bexiga tornou-se um incômodo. A sensação de preguiça era muito boa, por isso cruzou as pernas e tentou enganar o organismo. Há coisas, no entanto, as quais não se adianta nem tentar; impedir a vontade da natureza é uma delas.

O banheiro mais próximo ficava longe, e o barulho da correnteza não contribuía muito para o autocontrole. Teve de tomar uma atitude tipicamente masculina: infiltrando-se entre arbustos e correndo para trás de uma árvore, fez do musgo mictório. Por fim, olhou para baixo — ficou cara a cara com uma minhoca.

Como ela era feia, pobrezinha... e aparentemente estava infeliz; pelo menos não sorria, se é que tinha algum dente para isso. O sol a deixava estorricada e sem forças, um caule de margarida exposto ao calor, completamente murcho. O garoto quis fazer alguma coisa com ela, embora não tivesse a mínima ideia do que pudesse ser feito. A minhoca era indiferente ao olhar do rapazinho.

O som de passos fez o garoto virar-se abruptamente; a minhoca apenas transpareceu um leve movimento. As filhas da empregada apareceram para tomar um banho de riacho. O verde circundava o lugar, e o garoto, espiando entre os vegetais, sentiu seu mundo colorir. Uma morena, uma loura e uma ruiva: sorvete de napolitano em forma humana.

Os olhos brilhantes baixaram e viram que a minhoca havia encontrado sombra e se reidratava aos poucos. Ele baixou a mão direita e a aproximou dela, numa tentativa de brincar — uma brincadeira da qual não sabia certamente quem sairia vencedor. Tomou entre os dedos algo mole e esquisito de segurar.

Voltou a observar entre as folhagens e se deparou com uma imagem nunca vista pessoalmente por ele antes: as camisetas não poderiam ser molhadas, por isso as garotas as tiravam. O garoto colocava um sorriso malandro na face. A minhoca se contorceu, espreguiçando-se, como se a sombra, a temperatura ou algum outro fator do momento fosse responsável por que ela se esticasse.

À beira do riacho, a loura e a morena usavam os delicados dedos para desfazer o nó dos cordões de seus shorts, enquanto a ruiva descia calmamente a saia. O garoto continuava a espreita e se divertia com a cena. Começou a balançar os dedos, uma massagem malfeita na minhoca. Ela, mesmo assim, demonstrava gostar e o recompensava fazendo pequenas cócegas.

Não sabia se ria ou se se segurava, se olhava para a isca de peixe ou para as três sereias. Sem perceber, a situação dos dois novos amigos se inverteu: a minhoca estava rígida, procurando algo para olhar, e ele se contorcia, sentindo uma estranha alegria interior nunca sentida antes.

Reposicionou os olhos a tempo de assistir ao desfecho da cena. As moças analisaram o ambiente e, sem notar a presença do neto do patrão, se desfizeram das roupas de baixo e pularam na água cristalina, refrescando seus corpos.

Uma inesperada e repentina chuva de fim de tarde escorreu de uma nuvem passageira. As garotas saíram espontaneamente do riacho e, vestindo-se rapidamente, voltaram para casa. O garoto permaneceu estático — as gotas do suor imprevisto que vazava da testa se misturaram com as gotas do suor vindo do céu. A minhoca, agora molhada, se encolheu na palma da mão. A mão estava pegajosa — celoma de anelídeo, talvez — e mostrava o poder que ela teria dali em diante.

Perspicaz foi o Verão. Merecedor de uma menção honrosa por representar uma época que é tida, por muitos, como a da descoberta da adolescência.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A plantação de doces


Se o assunto é doces, Serena é uma verdadeira formiga.

Quando tinha apenas duas semanas de vida, sua mãe a deixara dentro do carrinho de bebê próximo à mesa da sala. Sobre a mesa, bem no centro, havia uma bomboniere — um recipiente para guardar doces em geral: bombons, pirulitos, chicletes e principalmente balas. Sua mãe sempre colocava jujubas para que as visitas pudessem levar algumas antes de ir embora. Isso mostrava que ela era uma boa anfitriã.

Por mais impressionante que pareça, ainda bebê e sem saber nada sobre a vida, Serena pôde perceber que doces eram gostosos e, não tendo como se levantar do carrinho, pegar uma bala, tirar do papelzinho e chupá-la, ela tentou se esticar o máximo possível, até conseguir agarrar a toalha da mesa. Apoiando-se no tecido, ela conseguiu sentar-se no carrinho. Com um pouco mais de esforço, ela conseguiu e se agarrar à mesa e aí, foi fácil subir. Mas antes que ela pudesse pegar uma bala, sua mãe teve um treco.

Mais tarde, aos sete meses, Serena aprendera a engatinhar. Sua mãe deixava que ela engatinhasse por toda casa, uma vez que não havia nada de perigoso próximo ao chão. Serena adorava andar de joelhos. Ia para a cozinha, para a sala, para o quarto, voltava para a sala. Até ela sentir um cheiro de açúcar queimado e perceber que a vizinha estava fazendo pudim caramelado.

Com a ajuda de uma vassoura, ela conseguiu abrir a porta da sala que estava destrancada, pois seu pai já estava quase chegando do trabalho. Ela, então, vai para a área. De lá, observava o movimento da rua. Desceu, com muito cuidado, as escadas — três ou quatro pequenos degraus —, engatinhou até o portão e conseguiu passar por entre as frestas. Seguiu em direção à casa do lado, mas teve seu caminho interrompido por seu pai que, ao pega-la no colo, sentiu-se aliviado.

Alguns anos depois, ela estava na casa de sua avó. Olhando pela janela, ela vê o caminhão de lixo passar e deixar cair um saco com lixo no chão. Ainda vendo a cena, vê um gato revirando o lixo e pegando um pedaço de bolo com a boca. Ela continua assistindo e vê que o gato sobe no telhado da casa de sua avó. Sem pensar duas vezes, ela sai da casa e, dando uma de homem-aranha, tenta subir no telhado, se apoiando no cano da calha.

Quando já estava quase chegando perto do telhado, o gato dá um salto e cai em pé, no jardim. Serena tenta fazer igual e se joga daquela altura. Para sua sorte, ela cai nos braços da sua avó que tinha saído para saber quem é que abrira a porta. Foi a última emoção que a pobre velhinha viveu.

Ao mudar para sua nova casa, Serena descobrira que uma das moradoras da rua fazia suspiros para vender. Logo no primeiro dia em que se mudou, já foi comprar um pacotinho. Eram realmente deliciosos. Não se conseguia comer um só.

Serena se viciou naquilo. Todos os dias, ela comprava um saquinho. Não importa se estava sol ou se chovia, estava sempre na porta de sua vizinha — no horário de sempre — e dona Francisca já sabia disso.

Infelizmente, para Serena, ela teria uma notícia desagradável. Na hora em que já estava acostumada, ela foi à casa de Francisca. Dessa vez quem atendera fora a empregada. Serena disse que havia ido comprar um pacotinho de suspiros, e a empregada lhe entregou o último.

— Você deu sorte. Esse é o ultimo. Ainda mais que, amanhã mesmo, a dona Francisca vai se mudar.

Serena não podia acreditar que ficaria sem seu doce preferido. Tentando pensar num jeito de fazer com que os suspiros não saíssem de perto dela, Serena começou a relembrar do dia que passou no sítio de seu tio. Ele lhe ensinara que para ter mexericas, laranjas, maçãs, era necessário plantar uma semente. Serena não teve mais dúvidas do que fazer. Pegou a pá, abriu um buraco em seu jardim e plantou lá o saquinho de suspiros.

Dentro de três dias, brotou um lindo formigueiro.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sete Horas


Todos os dias ela almoçava no único restaurante francês da cidade. Sempre às 11h, passava ligeira pelo espaço interno, ignorava a área destinada a fumantes e ia se sentar numa mesa ao ar livre sob a sombra de um guarda-sol. Frango ao vinho tinto e uma mescla de creme de leite e baunilha com uma fina superfície de açúcar queimado eram os pratos prediletos da senhorita.

Satisfeita, ia trabalhar. Diretora de um programa de variedades, passava do meio-dia às 19h orientando a apresentadora e os convidados para que o espetáculo exibido ao vivo ficasse realmente espetacular.

Na saída, praticamente esbarrava seu conversível preto no conversível também preto de outro diretor. Este um comandava o próximo programa de entretenimento, até as 2h.

O breve encontro acontecia diariamente, porém ambos não se conheciam nem por vista nem por nome, porquanto a equipe de produção não era alvo de fofoca nos bastidores.

Para ter a energia necessária para dirigir um programa em horário nobre, ele jantava todos os começos de noite, às 18h, na plataforma do Bon Appétit. Coincidência ou não, era comum ele pedir coq au vin e crème brûlée.

As horas são capazes de separar as pessoas, mas nem sempre por fuso horário. Os diretores moravam na mesma cidade, trabalhavam na mesma emissora, comiam no mesmo restaurante. Podiam ser considerados almas gêmeas, entretanto sete horas impediam que eles se encontrassem.

Ambos eram sócios do mesmo clube, alugavam filmes na mesma locadora, frequentavam a mesma loja de roupas, utilizavam o mesmo caixa eletrônico... Faziam exatamente a mesma coisa, embora com sete horas de diferença.

Certo dia, ele decidiu deixar o luxo e as guloseimas francesas de lado e fazer brigadeiro, o típico negrinho brasileiro. Era sábado de folga, e a luxúria por cacau fez com que ele saísse às 20h para comprar os ingredientes necessários. Logicamente, sete horas antes, ela já havia cozinhado o leite condensado com o achocolatado, por isso sentou-se para dar à massa o formato de bolinhas e polvilhar com granulado.

"O granulado! Como pude esquecê-lo?", pensou, dando um tapa na própria testa.

Sem o confeito, o brigadeiro não seria brigadeiro, mas uma pasta de chocolate, e isso não saciaria seu desejo. Teve, portanto, que correr ao supermercado em pleno crepúsculo de sábado. Não haviam planejado isso nem ela nem o destino.

Segurando o último pacote de chocolate granulado, eles se entreolharam pela primeira vez. Timidez, ternura e paixão tornaram o momento inesquecível. Na indecisão de quem levaria o produto, ela o convidou para enrolarem as bolinhas na casa dela.

Alguns minutos de conversa, grandes descobertas. Ambos haviam inclusive nascido no mesmo dia, sendo ele apenas sete horas mais novo.

O tempo passando, o sofá trocado pela cama, a conversa substituída por outros atos. A partir desse momento, deram início a uma linda história de amor.

Eram o casal perfeito: ela lavava parte das roupas sabendo que em sete horas ele lavaria o resto; ela pagava metade das dívidas, e ele pagava a outra metade sete horas depois; ela assistia tranquila à novela, pois ele só iria querer assistir ao jogo de futebol dali a sete horas.

Em pleno crepúsculo de um sábado ela foi chamada de última hora para dirigir uma edição especial do programa. Ele ficou em casa esperando um telefonema da emissora, pois obviamente faria plantão naquela noite.

Alguns minutos depois, ele ligou a televisão com o objetivo de contemplar o trabalho da namorada, mas se deparou com a notícia de um acidente. Não podia crer, mas o que via era um conversível chocado severamente contra um poste, os pedaços do automóvel preto espalhados pela pista. Aflição, espanto e dor tornaram o momento inesquecível.

A angústia espremia o peito e provocava um nó na garganta. Primeiramente pela trágica morte da amada, depois por saber que dentro de sete horas seria ele quem morreria.

Precisava se distrair e para isso tentou de tudo: varrer a casa, arrumar a cama, passar e dobrar todas as roupas, mas era inútil. Antes de realizar alguma tarefa, lembrava que esta já havia sido feita sete horas antes. De tal forma, restou-lhe apenas ficar sentado na poltrona, curtindo lugubremente suas últimas horas de vida.
Morreu. O coração parou de bater assim que o relógio indicou que sete horas tinham se passado desde o acidente.

O atestado de óbito constatou que de fato ele teve uma parada cardíaca, mas foi por causa da ansiedade e do nervosismo, visto que não sabia que a magia das sete horas já havia sido rompida após o falecimento da mulher.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os Perfeitos Anões de Jardim


Sempre fora uma mulher esnobe e perfeccionista. Gostava de tudo em seu devido lugar e não deixava que se aproximassem de suas coisas para que elas não estragassem com tanta facilidade.
Percebeu que seu jardim estava simples. Comprou vários anões de porcelana para enfeitá-lo. Arrumou todos os bonequinhos de uma maneira impecável. O jardim ficara lindo. Sentindo-se realizada, apagou a luz da varanda e foi dormir.

No dia seguinte, quando acordou e olhou pela janela, notou uma pequena diferença em seu jardim: havia apenas 6 anões, e não 7. Saiu e olhou para os lados, procurando investigar, mas não encontrou nenhuma pista. Para que não ficasse estranho a seu ver, ela pegou uma plaquinha de madeira escrito: “Saí para almoçar. Volto em instantes.” e colocou no lugar do anão roubado.

No outro dia, acordara cedo, para preparar seu rico café da manhã. Assim que olhou da cozinha para fora, teve um treco tão grande que arremessou com tudo a cafeteira no chão, quebrando a jarra de cristal.

No jardim, agora, estavam apenas 5 anões... e 2 plaquinhas. Uma delas não fora ela quem colocara, portanto se aproximou, agachou e leu: “O Dunga me convidou para o almoço de hoje. Voltaremos em breve”.

Isso a deixou um tanto furiosa. Por isso, naquela noite, ela pegou sua vassoura com cabo inoxidável e ficou atrás da porta da cozinha, esperando que o ladrão aparecesse. Assim que escutou um barulho, acendeu as luzes e, dando um salto para fora, apontou a vassoura para o vulto — "Rá!"

O marginalzinho, que estava mascarado, saiu correndo. Mas ela, muito esperta e rápida, não deixou barato: de camisola e descalça, saiu atrás dele, pelo meio da rua, segurando a vassoura como se fosse uma espingarda.

Vendo que o indivíduo estava próximo, ela se jogou em cima dele. Para sua surpresa, assim que tirou a máscara que lhe escondia a face, viu que o bandidinho de meia-tigela era ninguém mais ninguém menos que... ela mesma!

Moral da história: A maior vítima do perfeccionista é ele próprio.