sábado, 9 de junho de 2012

Aproveita, Julieta!



Os olhos lacrimejam, mesmo opacos:
Excesso de tesão a ser drenado!
Julieta, aproveita urgentemente
Que Romeu te ama e não é teu parente!

Há, por trás do romantismo insistente,
Quatro arrobas de carne adolescente.
Nem lhe cresceram pelos no sovaco,
Porém, já carrega hormônios no saco.

Aproveita, Julieta! Aproveita
Enquanto Romeu inda nem é homem,
Enquanto tem um tanque no abdômen.

Aproveita, Julieta! Aproveita,
Pois tudo que é novo, um dia, envelhece,
Pois tudo que é duro, uma hora, amolece.

sábado, 2 de junho de 2012

Barra Fixa


Petrix Barbosa subiu na barra para tentar o ouro, nas disputas individuais de ginástica artística. A regata amarela deixava à mostra os braços, verdadeiras granadas em atividade, e as axilas bem cuidadas. A calça azul, justa, revelava outra arma fatal, que tinha entre as coxas musculosas. Como se precisasse de mais, era lindo de sorriso e cabelo, simpático dos olhos e tinha os pés grandes.

O garoto que o assistia em casa tinha a mesma idade e também vestia uma camiseta do Brasil, mas era magro e tinha as axilas peludas. A calça servia apenas para esconder as pernas finas. O sorriso cheio de gengiva, o cabelo desobediente e os olhos cansados ajudavam na contradição. Pelo menos, o pé e o pau eram qualidades — e isso não precisava querer igual. Outra semelhança era a paixão pelo mesmo esporte.

O garoto em casa, no entanto, nunca manifestou seu gosto na prática. Era um indivíduo que preferia a leitura aos exercícios físicos. Mas acompanhava Pan, Olimpíadas e Mundiais pela televisão, compartilhando a expectativa, como se estivesse na pele do ginasta, torcendo para que não houvesse desequilíbrios.

Sempre que estava envolvido com isso, pensava entre parênteses por que nunca se interessou em procurar um salão de treinamento de ginástica artística. Levantava diversas hipóteses: preguiça de se deslocar de bairro; falta de afinidade com a educação física; vergonha de ter que se exibir em competições; provável preconceito que enfrentaria com relação ao esporte. Mas não listava o medo.

Sabia, e por isso escondia, que o medo era o motivo principal por não ter se aventurado na ginástica. Tinha medo de se machucar, medo de ficar dolorido, medo de quebrar um cotovelo, medo de explorar os aparelhos, medo de sentir medo de alguma outra coisa. Por isso, deixou de viver o desejo de infância e o transferiu para os atletas que passou a admirar. Vivia por intermédio dos outros.

Na vida social, também era assim: imaginava-se namorando ao ter um amigo que namorasse; imaginava que saía à noite quando um colega ia para a balada; imaginava pular de bungee jump se um conhecido o fizesse. Dentro de seu quarto, evitava fortes emoções e se contentava com as histórias que lhe contavam. Esse tipo de sensação lhe era o bastante.

A ficção era um círculo vicioso.

Nisso, a ficha caiu, e o garoto percebeu que precisava deixar de se fazer iludido. Assim, respirou fundo e, no mesmo momento em que o ginasta na televisão soltou-se da barra para realizar uma acrobacia aérea, o garoto em casa decidiu que se livraria da sua própria barreira. Perdeu por um instante a concentração na apresentação. Quando viu, na hora de segurar a barra de volta, a mão de Petrix deslizou e ele caiu de bunda no chão.

A bunda!, o garoto em casa pensou. Era mais um coisa para invejar.

sábado, 26 de maio de 2012

02:54


3º lugar nos Jogos Florais "Os Bonjoanenses"


O garoto acompanhava visualmente o tique-taque, esperando os poucos minutos para que o relógio esticasse seu braço comprido o mais alto que pudesse. Nada tinha para fazer às três da manhã, a não ser calcular o ângulo de noventa graus que se formaria; a hipotenusa horária seria suficiente para distraí-lo da insônia de quarta-feira. Sabia que já era quinta, mas, como o sol ainda não havia aparecido para oficializar, prolongava, ele mesmo, o dia anterior.

Pensou que o chá de hortelã com leite o ajudaria a dormir, mas o morno ainda estava quente e ficou com a língua queimada. Apelou à sua outra língua, a portuguesa, e abriu um livro de Saramago, mas não entendeu nenhuma vírgula do primeiro capítulo; como se o texto tivesse vírgulas e fosse dividido em capítulos. Portanto, apagou a luz, voltou a deitar-se e, em vez de fechar os olhos, os mantinha na direção do despertador.

Logo que amanhecesse, o alarme dispararia. Não que o garoto trabalhasse, precisasse ir ao colégio de manhã ou tivesse algum outro exercício que o forçasse a acordar cedo; apenas gostava do hábito de acordar com o toque irritante para ter o prazer de desligá-lo e voltar a dormir. Nunca contou para ninguém da mania, nem do motivo dela, mas a terra dos sonhos ficava mais divertida na segunda ida.

O pior era quando a bexiga coincidia e reclamava ao ouvir a campainha. Provavelmente, ela pensasse que estaria na hora de levantar e, por isso, pedia para ser urgentemente esvaziada. Tantas foram as vezes em que o garoto pensou em fazer ali mesmo e, dane-se, depois lavava o lençol. Mas isso era outro triângulo: o barulho avisava o organismo que alertava o cérebro, e este bloqueava qualquer ato grosseiro.

Era obrigado a ir ao banheiro, mal-humorado, e se deparar com o mau-humor da privada, que logicamente estaria de tampa fechada. Irritava-se por não ter um mictório em casa: tira, jorra, sacode e guarda, não levanta tampa, não dá descarga, não molha assento. Pensou diversas vezes que a pia seria uma ótima substituta, mas o cérebro, educadamente alienado na infância, também rejeitava isso.

O jeito seria apelar para o ralinho do chuveiro. Inclusive, mataria com acidez corporal as baratas que quisessem subir por ali. O cérebro já estaria cansado de tantos impedimentos e nem se intrometeria mais. Os respingos no pé nem contariam. Xxxxxxxx — era tão bom ter seu próprio banheiro. E se, no futuro, namorasse alguém que tivesse fetiche de chuva-dourada, seria mais gostoso.

Assim, a imaginação, que não passava de ficção, fantasiava a realidade e lhe deixava alegre debaixo do edredom.  As mãos, cumprindo a função de melhores amigas de um rapaz solteiro, formaram, dentro da cueca boxer, o terceiro triângulo da história. Nelas, o garoto depositou o protótipo de um filho que deixou de nascer.

Mas ainda eram duas e cinquenta e quatro, sem alarme para desligar, sem necessidade de dar uma urinada, sem sexo exótico real... Tinha somente a insônia e os ponteiros para lhe distraírem. Ficou olhando mais um pouco e, como se houvesse sido hipnotizado pelo movimento circular das horas, dormiu. A baba no travesseiro era a representação líquida dos sonhos incomuns de um adolescente ainda virgem.

sábado, 19 de maio de 2012

Atitude e Verbalização



Seja!
Valorize o próprio couro,
coroando sua testa com o ouro
dum alquimista a defecar.

Aja!
Infeste minha cabeça com seu piolho,
jogue acetona no meu olho
e me obrigue a te amar.

sábado, 12 de maio de 2012

Alakazam!



Será que toda criança fica encantada com magia e superpoderes, ou eu fui um caso excepcional? É complicado generalizar, mas acredito não ter sido o único, na infância, a sonhar com um mundo mágico onde eu pudesse voar, levantar edifícios, correr na velocidade da luz e saber que bastaria apontar um dedo e todas as vontades se realizariam.

Os desenhos foram os principais responsáveis por essa ilusão de viver em um mundo maravilhoso. Vi tantos heróis salvando o planeta, fadas ajudando as pessoas, feiticeiros aprontando o máximo, e eu pensava: “Também quero.” Queria conhecer, só por um instante, a emoção de me sentir como a pessoa mais importante do mundo, a mais poderosa, a mais bem querida.

Sempre sonhei em encontrar uma lâmpada mágica enterrada na areia da praia, para que eu pudesse esfregar e fazer três desejos. Não desejaria ser milionário, nem me tornar imortal. Meus pedidos seriam: ter asas que me fizessem flutuar pela imensidão do universo; ter força para arrastar montanhas; e ter poderes de bruxa para que eu melhorasse tudo que fosse indesejado.

Os anos passaram, a ingenuidade infantil ficou para trás e a maturidade me faz refletir sobre esses curiosos aspectos da juventude. Pensando nisso, percebi o que não havia notado nos tempos de criança: todos os meus sonhos impossíveis se tornaram realidade em algum momento.

Lembrei-me das histórias que minha mãe contava antes de dormir e que, embora não me fizessem levitar fisicamente, tornavam-me mais leve e capaz de alcançar as estrelas. Lembrei-me também dos milhares de obstáculos que me deixaram fracos a ponto de pensar que jamais os atravessaria, até que minha mãe me fortalecesse com palavras de incentivo. Por fim, percebi que, quando tudo parecia dar errado, era o colo da minha mãe que me confortava e me dava poder para modificar qualquer situação.

Ainda hoje, tenho esse sonho maluco de encontrar uma lâmpada mágica. Se eu me esbarrasse com uma, e o gênio me concedesse os três desejos de lei, o primeiro seria pedir que minha mãe fosse eterna.  Os outros dois, eu dispensaria. Com a minha mãe do lado, qualquer coisa torna-se possível.

Mãe, obrigado por me fazer sentir a pessoa mais importante do mundo, a mais poderosa, a mais bem querida.

Feliz Dia das Mães!

sábado, 5 de maio de 2012

Tempestade



Como um coco que não comeram,
Que continua pendurado no coqueiro,
Conto do homem com seu cajado.

O homem vive nesta isolada ilha
E tem pensamentos regressivos,
Embora seu nome seja Próspero.

Protege sua única filha
De todos os piores inimigos,
Que existem apenas no seu cérebro.

Nesses momentos de raiva, inspira,
Conversa com espíritos que só ele mira
E dança entre as ninfas do mar.

Acredita ser o todo poderoso!
Dá mais um trago bem guloso
E o estrago mental o faz viajar.

Como um coco ainda fechado
Observo que esta ilha deserta
Chama-se crackolândia, na certa.

sábado, 28 de abril de 2012

O leite que bebeu o gato



É o fazendeiro que trata a terra que abriga o pasto que contém a grama que alimenta a vaca que dá o leite que o gato bebe. Um está subordinado ao outro, e sempre desta forma, para que, no final, o bigode do gato fique com um bigode de leite. Ainda nessa metáfora felina, afirmo que me senti um bichano desmamado no fim de semana passado.

Meus pais viajaram e deixaram duzentos e cinquenta metros quadrados para eu tomar conta. Na verdade, foi o espaço que tomou conta de mim: aquele vazio extenso animava meu tédio e me obrigou a ficar deitado a tarde de sábado, assistindo programa ruim na televisão por pura preguiça de mudar o canal.

Então, a energia elétrica acabou. De certo, ela havia se cansado de ficar naquela chatice e me largou sozinho, com a enfadonha tarefa de ter que levantar para abrir a janela do quarto, se quisesse. Quando fiz isso, o jardim, no quintal, sorriu para mim. Sorri de volta, e ele, com um vento, balançou uma árvore que parecia me chamar com seus galhos.

Resolvi sair do ninho e adentrar o matagal. Descobri um lago, ali, dentro da minha própria moradia, um sinal de como eu mal conhecia minha casa e, consequentemente, como eu mal me conhecia. No lago não havia patos, nem vitórias-régias, nem nada muito ousado que um lago costuma ter. Havia, somente, uma ponte. Dessas de madeira, feitas já com a intenção de atrair umidade e cupim.

Se levava para Terabítia, para Pasárgada ou para lugar nenhum, eu não sabia, mas estava empolgado para descobrir. Subi na ponte e comecei a caminhar. Era longa e escondia de mim o seu final. Pulei um caramujo, desviei de um marimbondo e tive medo de que aquele negócio desabasse; mas segui em frente.

Quanto mais andava, mais tinha vontade voltar para casa, me trancar no quarto e dormir para sempre. Era tão comprida que superava a Rio-Niterói e a São Francisco. Chegou um momento em que eu já não sabia se deveria continuar até o outro lado ou voltar. Pedi para a ponte apontar uma ponta. Inventei um trava língua, mas continuei inseguro.

Optei por parar. Tomei fôlego por um tempo até que resolvi olhar para as laterais. Encontrei um garoto nadando sem roupa no lago. Parecia comigo fisicamente, mas tinha mais coragem, mais desinibição. Talvez fosse um sósia. Dei um oi e ele me cumprimentou no mesmo instante. Os gestos eram simultâneos.

Aquela versão nua de mim representava tudo que eu tinha vontade de viver, mas mantinha morto em algum canto secreto dentro de mim. Percebi, portanto, que eu não precisava cruzar a ponte; podia criar novos caminhos, saltando naquele lago e mergulhando até onde desse. Então, pulei da ponte e acordei submerso nas cobertas.

Levantei no ato e, quando percebi, já estava limpando o fogão ao som de uma canção sertaneja. Meus lábios cantarolavam “ai, se eu te pego” para a gordura que insistia em escapar do detergente. Meu cérebro agendava um programa, que não era de tevê, para mais tarde. Deixei de andar alienado em linha reta, sem desvios, e passei a olhar do parapeito da ponte. O leite havia bebido o gato.