sábado, 18 de agosto de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Senhor desensorrisado



Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...
TOM JOBIM, Wave.

A água do rio estava bem cristalina, e eu conseguia enxergar as sardinhas nadando para lá e para cá. Posicionei minha pata direita perto da superfície; assim que um peixinho bobeasse e emergisse para pegar as sementes que caíam da árvore e boiavam tranquilas, eu daria o golpe fatal. No entanto, quando estava chegando o momento exato, fui transportado misteriosamente para uma sala enorme com móveis imensos.

A porta estava entreaberta e percebi quando um pouco de névoa entrou no cômodo; alguns segundos depois, passou um avião. Eu estava em um reino acima das nuvens, num lugar que nem sabia que poderia existir. Enquanto me sentia totalmente fora da realidade, um homem gigantesco e carrancudo reclamava aos berros com uma varinha de condão:

— Eu peço um gato, e você me traz essa porcaria que nem tem olho? E se isso me arranhar?

— Não vou arranhar você — eu disse. — Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

Sabia que eu poderia ser entendido por tudo quanto é tipo de coisa: brinquedos, veículos, corpos celestes e até crianças. Só adulto mesmo é que não me entendia. Mas um gigante... Eu nunca havia visto um gigante de perto, muito menos tentado me comunicar com um; por isso, não tinha certeza de que ele me entenderia. Mas entendeu. Olhou seriamente para mim e falou:

— Eu estou infeliz. E minha infelicidade é proporcional ao meu tamanho. Daí, pedi um gato. Quero que você me faça feliz.

Com meu reles conhecimento de gato, nunca soube que gigante tinha varinha de condão, nem que ela funcionava com palavras mágicas. Mas o gigante me convenceu que, se a Fada Madrinha tinha o bibidi-bobidi-bum, ele poderia ter o fá-fé-fi-fó-fu. Ainda assim, não entendi por que ele havia me chamado, pois eu não sabia em que poderia ajudar. Então, ele me mandou sentar numa caixinha de palito de dentes, que também era proporcional ao tamanho dele, e me explicou:

“Não tem coisa mais chata do que ficar no castelo, sem nada interessante para fazer. Sempre tem um momento em que o videogame perde a graça, que a televisão cai na mesmice e que o computador se torna cansativo. Aí, eu me sento no sofá e me emburro.

“De vez em quando, uma criada ou outra aparece para varrer o tapete ou espanar a poeira dos móveis. Dá uma raiva tremenda quando elas param o que estão fazendo para olhar minha cara e perguntar o que está acontecendo.

“— Gigante Everest, por que está mal-humorado? — dizem.

“— Mal-humorada é a vovozinha! — digo.

“Realmente a Vovó Himalaia tem um humor péssimo, que nem o Vovô Corcovado aguenta. Mesmo assim, era fato que nada mais me fazia sorrir, tanto que acabei sendo apelidado aqui, no reino, de senhor desensorrisado.

“Saber que as pessoas me chamavam daquele jeito só fazia com que meu mau humor aumentasse. Tomei, portanto, uma decisão: iria rir, mesmo que não encontrasse motivo para isso.

“— Ou rirei como uma peste, ou não me chamo Gigante Everest!

“A fala deu até rima! Fui para diante do espelho e fiquei olhando para mim e tentando encontrar algo engraçado. Fiz careta: subi a sobrancelha, entortei os olhos e pus a língua pra fora. Não funcionou. Fiz outra careta, mas o espelho caiu na gargalhada — eu me irritei e o joguei no chão.

“Nem me importei com os famosos sete anos de azar; eu já estava tão mal-humorado que um pouco de má sorte não seria nada absurdo.”

Pessoas felizes podem até falar bastante, mas gente amargurada consegue tecer discursos enormes. Ou talvez isso fosse próprio do gigante, que tinha tudo grande, até a fala! O fato é que minhas orelhas de gato estavam cansadas de tanto blá-blá-blá e resolvi meter o focinho e interromper o pensamento.

— E por que você não pediu para a varinha mágica lhe dar um pouco de felicidade?

— A varinha me traz coisas materiais, mas não pode modificar os sentimentos. Por isso preciso que você me faça ficar rico! Se eu tiver ouro, serei mais feliz.

— Ainda não entendo. Como um gato de rua, pobre e morto de fome como eu, pode fazer com que você enriqueça?

Ele me olhou grosseiro e foi até o armário onde guardava os instrumentos musicais. Pegou uma harpa cor de prata, como se estivesse forrada por papel-alumínio, e me contou:

— Esta harpa prateada é mágica. Assim que ela tocar uma música, o animal que a ouvir passa a botar ovos de ouro.

— Mas não sou galinha e não boto ovo.

— A partir de agora, botará.

A harpa desenvolveu um rosto e braços. Bocejou, espreguiçou-se, abriu os olhos, esticou os braços para trás e começou a tocar. Era uma canção medieval, tipo dessas que aparecem em filmes de reis e rainhas. Mal tive tempo de prestar atenção na música e senti um enjoo, como se algo pesasse no meu estômago. A ânsia foi aumentando, e eu não consegui segurar: fiz força de vômito e golfei um ovo de diamante.

— Ué, isso é diamante! — eu disse. — Você não falou que os ovos seriam de ouro?

— Ah, é que estou acostumado com gansos! É a primeira vez que faço experiência com um gato. Da vez que fiz com coelho, saiu um ovo de chocolate.

Finalmente, alguém me explicou como é que surgem os ovos de Páscoa.

Enquanto eu me recuperava do fato de ter botado um ovo, Everest juntava o pedaço de diamante, que para ele não passava de uma bolinha de gude, e guardava no bolso. 

— Estranho! Não funcionou. Fiquei um pouco mais rico e, mesmo assim, continuo infeliz.

O gigante se chateou ainda mais e foi olhar através da janela do castelo. Resolvi que não podia ficar parado: escalei o corpo dele e me sentei em seu ombro esquerdo, como se fosse um papagaio no ombro de um pirata. Quis saber o que ele estava vendo, e ele me apontou para baixo.

— Veja lá na terra: todo mundo está correndo e se divertindo; só há alegria! E aqui em cima é tudo tão triste.

De lá das nuvens, as pessoas pareciam formiguinhas: os adultos eram saúvas, e as crianças eram operárias, difíceis de enxergar. Se bem que as formigas operárias trabalham, carregando as folhas para o formigueiro, e as crianças apenas brincam, carregando a bola até o campo de futebol.

Everest comentou que queria fazer uma visita a terra e descobrir qual era a origem da felicidade, para colher um pouco para si. Mas suspirou descrente, pois não sabia como fazer para chegar até lá. Então, dei uma sugestão:

— Por que você não usa sua varinha e pede para nascer um pé de feijão, daqui do céu até a terra? Aí, é só descer por ele.

— Pé de feijão? Mas pé de feijão cresce para cima! Se vai ser para baixo, é melhor pé de mandioca, não?

A análise dele fez sentido. Concordei com um ronronar, e ele balançou a varinha, dizendo as palavras mágicas:

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fu! Quero que cresça um pé de mandioca, que vai desta nuvem até o chão.

No fim das palavras, a nuvem vibrou e pudemos perceber que uma saliência brotou na parte de baixo. Rapidamente, como um vegetal que foi regado com adubo a jato, as raízes se desenvolveram, com casca marrom e grossa, cheia de saliências, e se esticou até o pasto de uma fazenda.

Continuei no ombro de Everest, enquanto ele descia aquele tronco, como se fosse uma parede de escalada. Por ser gigante, não demorou muito a colocar os pés na grama e quase aterrissar em cima de uma vaca. A primeira atitude de Everest foi arrancar um pouco do mato e colocar na boca. Na primeira mastigada, cuspiu tudo.

— Essa nuvem de vocês tem um gosto horrível! Prefiro a do meu reino, que é feita de algodão-doce.

Enquanto eu explicava que ninguém comia capim — exceto as vacas e outros animais herbívoros, que pareciam se deliciar —, um garoto, que vinha correndo, tropeçou no mindinho do gigante. O grande homem pegou o menino na palma da mão e o levantou para perto do rosto. O menino não mostrava estar assustado, mas dava risada e arregalava os olhos por ver uma criatura fantástica tão de perto.

— Uau! Você é mais alto que o papai.

— E você parece um feijão. Vou chamá-lo de Feijão.

O gigante levantou o garoto pela camiseta e percebeu que os pés de Feijão estavam sujos e descalços. Viu que as calças também já estavam rasgadas e a camiseta não era de tecido muito bom.

— Por que você usa roupas tão velhas? E onde estão seus sapatos?

— Meus pais são pobres. Mal temos com que nos alimentar. A gente vive nessa fazenda, mas é como empregado. E o patrão não deixa nem a gente beber o leite das vacas.

Everest fez cara de confuso; disse que não entendia como um moleque paupérrimo como Feijão podia ser feliz, sendo que, mesmo com todo dinheiro do mundo e uma varinha mágica, ele não conseguia mostrar um sorriso sequer.

— Eu amo o papai e a mamãe. E também amo o campo e amo a vaca. Gosto de tudo que vive comigo, e isso basta para eu achar a vida boa. E você, não ama esse seu gato?

O gigante franziu a testa e voltou o menino ao chão. Então me pegou pelo rabo e me arrancou do ombro dele. Emburrou mais uma vez e começou a revirar os bolsos. Tirou o ovo de diamante que havia guardado e entregou a Feijão.

— Que ovo esquisito! Será que vai nascer um pintinho de vidro?

O garoto saiu correndo com o ovo nas mãos, chamando pela mãe e dizendo que iam ter que forrar o galinheiro com almofadas, para que, se algum pintinho de vidro caísse do poleiro, não quebrasse. Everest via o menino correndo pelo campo e achou engraçado o fato de ser tão inocente.

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fu! Quero amar o campo e amar a vaca. O reino acima das nuvens ficará bem sem a minha presença.

Dito isso, a varinha de condão desapareceu, e o gigante foi ficando marrom, da cor da mandioca, e se estendendo para os lados. Em poucos segundos, ele havia se tornado uma montanha. Como não sabia o que fazer, acabei indo embora; mas, algum tempo depois, ouvi comentários sobre uma montanha que levava até o céu. Fiquei sabendo que ninguém havia conseguido escalá-la até o topo, mas alguns alpinistas juravam que a ouviam rir.

sábado, 11 de agosto de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Alguma coisa sobre pneu



É só você acreditar
Que uma nova estrela vai poder brilhar
ROUGE, Nunca deixe de sonhar.

Eu estava revirando uma lata de lixo, e apenas meu rabo estava para fora, quando ouvi um rosnado. Parei com uma espinha de peixe na boca para ouvir melhor. Os rosnados aumentaram e pareciam vir de três gargantas diferentes. Resolvi sair devagar da lixeira e dei de cara com três rottweilers prontos para atacar. Não tive tempo de pensar em nada; apenas ericei o pelo, dei um miado esganado e larguei na pole-position.

O pôr do sol me deu forças para incorporar um praticante de parkour, com saltos quase quilométricos — até que me encurralei em um beco. Arregacei as unhas para escalar a parede, tijolo por tijolo, e dei dois mortais para cair do outro lado do muro. Vi uma janela aberta e nem me perguntei de onde poderia ser: lancei meu corpo para dentro, de uma forma que causaria inveja até mesmo à Mulher Gato.

— Veja, tia-que-dá-remédio! É um miau.

Olhei para a menina, na cama, com um sorriso apagado no rostinho doente, e também para a mulher, toda de branco e com chapeuzinho de enfermeira. De tantas janelas para pular para dentro, tive a petulância de atravessar a de um quarto de hospital. A enfermeira ficou tão desesperada que apertava descontroladamente o botão para chamar ajuda, enquanto disparava:

— Meu Deus! De onde essa coisa veio, Glorinha? Tem que sair rápido, antes que faça algum mal a você.

— Mas, tia-que-dá-remédio, ele tá dodói também, no olhinho. Ele tem que ficar comigo.

A menina era bem menininha ainda, mas tossia tão forte que até pareciam os latidos dos rottweilers. A enfermeira falava mais alto que a tosse da menina e chamou tanto por socorro que, logo, chegou mais uma enfermeira, outra enfermeira, o segurança do hospital, o médico, a mãe da menina e um paciente que estava no quarto ao lado.

— Eu pego pela barriga!

— Eu seguro as patas, para ele não arranhar.

— Eu tapo o focinho, para ele não morder.

Todo mundo elaborava uma estratégia maluca para me tirar dali — mas bastava que pedissem, e eu sairia. Mesmo assim, esperei para ver o que fariam. Quando uma enfermeira veio de um lado e o segurança veio de outro, a menina berrou, entre as tossidas:

— Parem! Ele é bonzinho. Vejam como balança o rabão.

A mãe e o médico se aproximaram da garota e tentaram fazê-la entender que hospital não é lugar de bicho, que eu poderia estar doente de verdade e que precisaria de um veterinário. Prometeram que me levariam ao veterinário. Mas a menina estava decidida a não me dizer adeus naquele momento.

— Tio-que-ouve-o-coração, lembra que você disse que eu ia dormir bastantão hoje à noite? E mamãe, lembra que você disse que eu podia pedir o que quisesse até o fim do dia? Eu quero o miau.

O médico respirou fundo, e a mãe abraçou a menina para chorar um pouquinho. Todo mundo meio que lacrimejou e entraram no acordo de que o pedido da menina tinha que ser realizado, independente das proibições do hospital. Eu estava com medo dos rottweilers que me esperavam do lado de fora, então, aceitei ficar.

Quando todo mundo saiu, a menina foi para perto da janela, pediu para que eu subisse na cama também, fungou o nariz e me disse:

— Tá vendo aquela estrela? A segunda à direita? Eu disse pra ela que queria um miau, e ela me respondeu, assim, com brilho de estrela, que tava tudo bem. Daí você apareceu.

A menina olhava para a janela como se as estrelas e a Lua fizessem parte de uma família, e isso ficou esclarecido quando ela me contou:

— Sabia que é lá que vou morar quando acordar, depois de dormir bastantão? Foi o tio-que-ouve-o-coração que disse.

— Mas por que é que você vai “dormir bastantão”?

— Eu não sei muito bem... — tosse, tosse, tosse — Mas ouvi quando ele disse pra tia-que-dá-remédio alguma coisa sobre pneu. Ele é bobinho e acha que sou um vrum-vrum.

O sono abriu a boca de Glorinha, que se deitou. Eu também já estava meio cansado de tanto ter corrido, que me encostei ao lado dela. Ela foi fechando os olhos bem devagarinho e começou a ficar com frio. Arrastei o cobertor com a boca para cobri-la, mas parecia que ela já estava dormindo e que era o sono de “dormir bastantão”, que ela falava.

Para não atrapalhar, resolvi ir embora. Vi que a segunda estrela à direita brilhava ainda mais e caminhei tranquilamente, olhando para o céu. Só percebi que estava totalmente distraído quando me esbarrei em patas que não eram minhas. Os dentes afiados do rottweiller sorriram para mim, e isso resultou em um desmaio de gato.

***

Não há nada mais incômodo do que quando estamos dormindo e ficam cochichando na nossa orelha. Eu fazia um esforço felino para abrir os olhos, enquanto ouvia um zum-zum-zum do tipo: “Olha que diferente!”, “Será que anda?”, “Será que voa?”, “Será que morde?” Quando consegui levantar as pálpebras, um punhado de estrelas se assustou, gritou e saiu aos trotes. Uma delas ainda deu voz de comando:

— Corram, antes que ele nos machuque!

— Não vou machucá-las! — eu disse. — Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

— Um gato? Já ouvi falar em gatos, mas sempre achei que não passasse de contos de fadas — uma estrela comprida disse.

Senti que eu não estava no meu estágio normal; era confusão demais para uma mente de gato desvencilhar. Primeiro, eu estava fugindo dos cachorros; depois, fui brevemente adotado por uma garotinha doente; daí, voltei para a rua e encontrei novamente os cachorros; então, do nada, acordei na Lua, cercado de estrelas que não sabiam o que era um gato.

— Vocês nunca viram um gato antes?

— Não! Não é muito normal aparecer bicho por aqui. O último que vimos foi uma cadela chamada Laika, mas já faz muito tempo.

Alguém já havia comentado dessa tal de Laika comigo, que ela era conhecida por ser o primeiro ser vivo a entrar em uma astronave e ir ao espaço. Mas, como ela era uma cachorra, não quis nem saber muito da história. Queria mesmo era entender o que eu estava fazendo no céu e por que as estrelas estavam tão agitadas.

— Alguma de vocês sabe como vim parar aqui?

— Meu nome é Janaína — uma delas disse.

De repente, todas as outras começaram a se apresentar — Raul! Geórgia! Afonso! Ernestina! Claudete! — e, assim, mudaram de assunto. Com tanto nome vagando na minha cabeça, não aguentei e dei um miado bem esculachado. Todas se calaram, e eu repeti a pergunta.

— Como é que vim parar aqui?

— Quando as pessoas terminam a vida delas na Terra, elas sobem aqui no céu, onde se transformam em estrelas — uma estrela chamada Diana disse. — Agora, o que um gato faz aqui é mistério até para nós. Talvez seja porque você tem alma de humano.

Senti o calorzinho de um cometa que passou ali perto e fiquei pensando se algum deles viria até a Terra para me trazer de volta. Mas não havia rodoviária, e isso me fez concluir que eu teria que passar mais um tempo lá.

— E a Glorinha? — eu disse. — Ela está bem?

— A menina que veio um pouco antes de você? Ela está bem ali.

A estrela apontou para um pedaço da Lua, onde a menina dançava e pulava amarelinha. Quis me aproximar, e ela logo me viu.

— Miau, viu só que bacana? Aquele pneu que o tio-que-ouve-o-coração disse que eu tinha... devia ser pneu de foguete.

Ela começou a dançar, sem tosse nem nariz escorrendo. Fiquei feliz por vê-la curada e, assim que ela saiu rodopiando, perguntei à Janaína (ou talvez fosse Amélia, ou Gislaine, ou Alessandra) por que Glorinha ainda não havia se tornado uma estrela.

— Ela precisa fazer alguma coisa muito boa para virar estrela.

— E como ela fará isso?

— É só ela desejar. O espaço cósmico, que vai desde a segunda estrela à direita e depois sempre em frente até de manhã, é mágico. É só ela desejar, que tudo se realiza.

Fui contar a novidade para a menina, enquanto ela provava um pedaço da Lua, para saber se realmente era de queijo. Ela me respondeu que já virava estrela e me mostrou, dando uma cambalhota. De repente, apareceu uma estrela grande e brilhantíssima, que iluminou os cabelos escuros de Glorinha.

— Glória, jovem menina, seja bem-vinda! Sou a Estrela-Guia, mãe de todas as estrelas e filha do Sol.

— Você também é mãe da estrela-do-mar?

— Apenas das do céu, querida. E você, em breve, será uma de nós. Mas, para isso, precisa fazer uma coisa boa. Basta dizer o que quer e, se as forças cósmicas considerarem uma boa feita, você será transformada.

A menina gostou da ideia e disse que queria brincar. Explicaram que não era uma brincadeira, mas tudo para ela se resumia em diversão.

— Bem, vejamos... Todo mundo aqui poderia falar rimado! Seria uma coisa boa, todos falando que nem música, não seria?

A Estrela-Guia deu uma rodopiada, piscou três vezes e consentiu. Quando uma das estrelas foi perguntar se havia dado certo, a fala saiu em versos:

“Eu, que ouvi o pedido bem de perto
Fiquei na dúvida para saber se deu certo.”

Nisso, outra estrela respondeu:

“Deu mesmo. Que gozado!
Tá todo mundo falando rimado.”

Mas a Estrela-Guia lamentou:

“Infelizmente, esse seu desejo não foi suficiente.
Você não virou estrela e continua sendo gente.”

A menina pensou, pensou e decidiu tentar outra vez:

“Mas eu não me darei por vencida!
Quero que todas as estrelas fiquem coloridas.”

A Estrela-Guia deu uma rodopiada, piscou três vezes e consentiu. O céu ficou parecendo um manto de confetes, com cada estrela de uma cor: estrela bege, estrela verde, estrela vermelha e até estrela cor-de-laranja com bolinhas azuis! Mas a Glorinha continuava menina. A Estrela-Guia repetiu o desabafo:

“Esse seu desejo também não foi suficiente.
Você não virou estrela e continua sendo gente.”

Glorinha não desistiu e tentou de novo. Dessa vez, deixou que os sentimentos falassem por si:

“Neste céu, a gente brinca e a gente dança,
E o miau está aqui, mas tem muito bom coração.
Quero que ele faça bem a mais uma criança;
Por isso, merece voltar, para balançar o rabão.”

A Estrela-Guia deu uma rodopiada, piscou três vezes e consentiu. Chegou para mim e disse:

“Pule no próximo meteorito que passar.
Ele vai cair no seu planeta, em algum lugar.”

Rocei a cabeça nas pernas de Glorinha e recebi um cafuné da garota, em sinal de despedida. Miei para as demais estrelas, que balançaram a ponta direita, para dar tchau. Saltei no meteorito e fiz uma viagem de volta para o lugar de onde vim. Quando aterrissei e olhei para o céu, a segunda estrela à direita da Lua havia recebido uma amiga, pequenininha, cor-de-rosa bem claro, mas muito iluminada.

“Miau, Glorinha!
Descanse em paz, menininha.”

sábado, 4 de agosto de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Cabeça de papel e coração de lantejoulas



Todo mundo tem um primeiro namorado.
Só a bailarina que não tem.
CHICO BUARQUE, Ciranda da Bailarina.

Os cachorros são animais tão idiotas que, quando veem um carro passar, tratam de correr atrás. Uma vez, cheguei a perguntar para um vira-lata manso qual é o motivo de eles fazerem isso. Ele me respondeu que é o mesmo motivo pelo qual eu me sinto atraído por novelos de lãs e pelo qual a boca das crianças se enche de água quando elas olham para um pedaço de bolo. É um impulso sem explicação.

Mas já reparei que há um carro que eles nunca seguem: o caminhão de gás. Como um gato de rua que já presenciou as histórias mais imprevisíveis, entendo que esse silêncio é uma amostra do respeito que eles têm. Não respeito pelo motorista, nem pela empresa de gás, mas pela musiquinha que é tocada.

Ouvi o tananam pela primeira vez muito antes de os vendedores de gás a utilizarem em seus caminhões. Faz bastante tempo, da época em que eu ainda era filhote e estava me acostumando a enxergar com um olho só. Essa música foi usada no samba-enredo de um Carnaval do qual eu jamais me esquecerei.

Falavam tanto dessa festa noturna cheia de gingado e tamborins, que resolvi participar da folia. Cheguei com antecedência e fiquei no pátio externo do sambódromo. Como eu era apenas um gato, não tinham por que me impedir de ficar naquele espaço; assim, pude conhecer os acessórios carnavalescos antes mesmo de os portões se abrirem.

As alas de todas as escolas de samba ficavam naquele espaço, que diziam ser a concentração. Era arlequim para um lado; colombina para outro e um pierrô interferindo no romance. No meio de tudo, ficavam os carros alegóricos. Imaginei como seria um engarrafamento na marginal com carros enfeitados como aqueles.

Deixei os pensamentos bobos de lado e vi que, no espaço destinado à escola de samba que homenagearia as artes, havia um carro-bailarina. Certamente era o mais bonito dentre todos e o que mais chamava atenção: era quadrado, como uma caixinha de música e, dentro, uma bailarina girava, com uma perna levantada e equilibrando-se na ponta do outro pé.

Cheguei perto para conferir os detalhes e notei que, na caixa, estava escrito “Elisa”. Confirmei que esse era o nome dela quando o carro-pintor e o carro-escritor passaram ao lado e desejaram um bom desfile a ela. (Não, não imaginei o que eles queriam dizer; escutei o que foi conversado! Carro alegórico também fala, mas há tanto barulho em dia de carnaval, que ninguém ouve a voz dos coitados — apenas os gatos, que têm a audição sensível.)

— Quebre a perna! — um deles disse.

— Mas tadinha! Sem a perna, ela não desfila — o outro disse.

— Calma, seu bobo, é só um jeito de desejar boa sorte, antes da apresentação.

Evitei uma risada felina e saltei para ver os outros carros. Havia um carro-onça, na escola de samba que homenagearia os animais; um carro-sereia, na do folclore; e um carro-banana, na das frutas. Mas o que me chamou muito a atenção foi o carro-soldado, que pertencia à ala do exército, em homenagem às forças armadas brasileiras.

O carro-soldado tinha a cabeça feita de papelão, e o corpo era coberto com mantas de chumbo, mas não tinha um nome tão estiloso gravado no peito: era João, simples assim. Não era vestido com o uniforme verde tradicional, mas tinha várias cores em sua roupagem. O colorido lhe dava um ar de beleza e felicidade. Por parecer um arco-íris, alguns se arriscavam a chamá-lo João do Arco.

— Do Arco, esteja apresentável para nosso desfile!

— Às suas ordens, carro-capitão!

Enquanto colocavam as últimas lantejoulas nos botões de sua calça, João esquivou o olhar e avistou, lá longe, o rosto de Elisa. Não conseguiu ver mais do que a região que vai do coque do cabelo ao colarinho do vestido, mas soube que aquele era o carro mais alegórico que já havia visto.

— Os pneuzinhos dela são um charme, não são? — o carro-marinheiro disse.

João preferiu ficar quieto; as bochechas ficaram cor-de-rosa e nem foi preciso salpicar purpurina; o motor bateu mais forte e provocou uma explosão interna de confetes. Elisa havia conquistado nota 10 em todos os quesitos, segundo os sentimentos do soldadinho.

A alguns metros dali, na escola de samba que homenagearia a magia, o carro-feiticeiro assistia à cena de timidez de João e percebeu o olhar apaixonado. Veio em tão alta velocidade que quase me atropelou. Colou no carro-soldado e foi bem direto nas palavras:

— Nem se atreva, Do Arco! Ela já é comprometida. Há tempos, buzinamos um para o outro.

— Mas eu...

— Quebre a perna!

Numa arrancada violenta, o carro-feiticeiro bateu no carro-soldado e arrancou, com toda força, uma das pernas de João. No chão, ficaram apenas os destroços de chumbo, lantejoulas e todos os outros acessórios necessários para confeccionar um objeto carnavalesco.

O susto foi grande em quem viu a cena: os queixos de alguns se descolaram, os cabelos de outros caíram e meu único olho ficou arregalado ao máximo. A vilania do carro-feiticeiro fez com que o soldadinho derramasse uma lágrima de cola e decidisse que não iria mais desfilar.

Tristeza e carnaval não combinam, e o destino sabe disso. Enquanto João se lamentava cabisbaixo, Elisa passou ao lado dele, girando e tocando o tananam de música clássica. João levantou a cabeça a tempo de vê-la se posicionar numa vaga da frente e sorriu.

— Vejam! Ela só tem uma perna e ainda assim vai desfilar.

Ninguém se atreveu a contar a ele que a outra perna da bailarina estava levantada e não podia ser vista. Preferiram manter o alto-astral do soldadinho. Ele se animou tanto que foi até ela e estacionou ao lado, não tão perto, mas perto o suficiente para que o coração festejasse soltando serpentina.

— Carro-bailarina, eu...

— Carro-soldado, eu...

Eles não precisavam nem se falar, pois se entendiam sem dizer uma única palavra. Cornetas soavam na mente oca de João, e borboletas dançavam balé onde deveria ser o estômago de Elisa. O carro-feiticeiro viu a alegria dos dois, ligou o motor e se enfiou no meio, ralando nas laterais. Quis intimidar o carro-soldado:

— Marche, soldado, cabeça de papel! Se não marchar direito, vai preso pro quartel.

Antes que um dos dois pudesse dizer algo, um alarme tocou: era o sinal de que o desfile começaria e que a escola de samba de Elisa seria a primeira. Corri para a arquibancada e fiquei embaixo de um dos bancos. Mesmo com um olho só, conseguia visualizar o começo do desfile e os carros se preparando para entrar.

Enquanto as alas sobre arte sambavam e expunham a coreografia que haviam preparado para a apresentação, o carro-soldado ficou no portão, admirando cada centímetro que o carro-bailarina avançava. Ele não percebeu o carro-feiticeiro se aproximar e cuspir nele algumas gotas de gasolina, na região das costas.

O clima era de muita algazarra no sambódromo: os pandeiros eram estapeados e gritavam de dor, os tambores eram batucados e reclamavam dos cutucões, e a garganta do intérprete latejava de tanto cantar. De repente, houve um silêncio total. Ouviu-se somente a melodia clássica. A canção de Elisa fez todo mundo parar o que está fazendo e prestar atenção na novidade.

Após alguns minutos de desfile, a escola atravessou a avenida e os carros foram para o pátio que ficava na saída. A próxima escola que entrou foi a da magia, com o carro-feiticeiro, todo pomposo e mal-encarado. Vieram outras escolas em seguida e, por último, quando o dia já estava quase amanhecendo, o carro-soldado entrou em cena.

Como era a última escola, resolvi acompanhá-la, andando por baixo dos bancos, até o portão de chegada. Quando João cruzou a linha final, o farol bateu no que não devia ser iluminado: o carro-bailarina descansava sua beleza ao lado do carro-feiticeiro, que também dormia.

O soldadinho decidiu ir para o outro canto do estacionamento e derramou mais algumas gotas de cola. As pessoas já se preparavam para ir embora, mas eu decidi ficar um pouco mais. Passei entre as grades da cerca e fui falar com o João. Quando me viu, ele se assustou e fez um desabafo.

— Servir de cama para um gato de rua era só o que me faltava! Além de ter tido a perna e o coração arrancados, ainda ficarei cheirando a xixi de gato.

— Calma, amigo! Eu não tenho essa intenção, não. Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

Disse que já sabia o que se passava e, também, que entendia a aflição dele.

— Ela é a colombina, e você é o arlequim. Ambos estão apaixonados um pelo outro. Mas um pierrô doente de ciúmes quer distanciar vocês dois, em nome da autossatisfação.

Ele dormiu com a minha falação, e eu resolvi ir embora. Já estava com as duas patas dianteiras para fora do sambódromo, quando percebi uma luz se acendendo em meio à escuridão. Olhei para trás e vi que o carro-feiticeiro estava acordado. Ele ligou o motor bem baixo e foi em direção ao carro-soldado.

Pensei que fosse apenas meu sono criando algum tipo de miragem, mas meu único olho enxergava muito bem e viu quando o carro-feiticeiro rangeu vingativo e acendeu um palito de fósforo que fazia parte de seu enfeite.

Sem ter sido contagiado pela alegria do carnaval, ele atirou a chama nas costas do soldadinho, onde anteriormente havia jogado gasolina, e ainda sussurrou:

— Quartel pegou fogo. Do Arco se deu mal!

Dei um miado tão desesperador que o carro-bailarina acordou. O carro-feiticeiro estava se aproximando dela, para entrelaçar suas rodas, mas Elisa o rejeitou, com batidas nervosas, a ponto de amassar uma das arestas da lataria quadrada.

O carro-feiticeiro ficou tão irritado que disparou para fora do estacionamento, e o carro-bailarina se aproximou do carro-soldado a tempo de ver as folhas de chumbo se derretendo e o papelão virando cinzas.

Sem ter como controlar o fogo, Elisa começou a tocar sua música clássica, como marca de despedida. No entanto, o gás, que era o combustível que fazia a bailarina girar, acabou se espalhando e provocou uma explosão.

Os holofotes se acenderam, e os seguranças do sambódromo apareceram, mas os carros, àquela altura, já haviam se queimado totalmente. No chão, restou apenas um coração de lantejoulas carbonizadas.

sábado, 28 de julho de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: O urso que não era de pelúcia



A escuridão não interpreta palavras,
Mas as paredes absorvem os gritos.
DRAMA, Boneca de Pano.

Imagino como seria um gato, feito eu, usando uma peruca loira de cachinhos. Talvez ficasse parecendo uma princesa dos contos de fadas ou, quem sabe, uma apresentadora de programa infantil da atualidade. Talvez eu ficasse bastante estranho, já que cabelo de gato, para não ser estranho, precisa ser da cor do pelo.

Penso a respeito disso porque quase pertenci a uma família onde todo mundo tinha cachinhos dourados. Na verdade, entrei em uma casinha de palha, achando que ninguém morava lá. Mas, quando já estava dentro, percebi que havia móveis nos cômodos e comida na mesa.

Ouvi um resmungo vindo do estômago e percebi que era melhor aproveitar os quitutes que estavam por ali. Num salto estiloso, subi na mesa. No primeiro prato, havia mingau: era mole demais e estava muito quente. No segundo prato, havia uma rapadura: era muito dura e estava fria demais. Mas, no terceiro prato, havia um pão de ló com cobertura de morango: perfeito, na maciez e na temperatura.

Enquanto eu tirava alguns bocados daquela guloseima, a maçaneta girou e a porta se abriu. Três mulheres haviam chegado, todas as três de cabelos cacheados e loiros. Aquela era a casa das Cachinhos Dourados!

As Cachinhos Dourados eram conhecidas: a mais velha se chamava Sara e sempre levava mingau para as crianças do orfanato; a do meio se chamava Sarali e vendia rapadura na porta das casas; e a mais nova se chamava Saralinda e era querida por ser tão meiga. Elas eram avó, mãe e filha.

Quando me viram, Saralinda sorriu e achou tudo muito engraçado; Sarali deu um berro tão assustado que um pedaço do teto até desabou; e Sara foi correndo pegar a vassoura para me expulsar a pauladas.

— Não atire o pau no gato, vovó! — Saralinda disse.

— Isso mesmo — eu falei. — Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

Explicação de gato é em vão para os adultos. Gente grande não entende língua de gato, da mesma forma que gente pequena custa para entender língua de gente grande. Mas a menina me ouviu, porque gente pequena tem o dom de entender os animais. Ela correu e deu um abraço em mim. Esse gesto fez a avó guardar a vassoura e a mãe parar de gritar.

— Podemos ficar com o gato, mamãe? — ela dizia. — Podemos?

— Mas esse bicho é cego! Ponha pra fora, ponha?

A menina ficou triste e baixou os olhos.

— Mamãe, se eu fico cega, você não me ama mais?

A menina olhou para a mãe, a mãe olhou para a avó, e a avó, que não tinha mais para quem olhar, fez que sim com a cabeça para dizer que eu poderia ficar. Por um estalo de segundo, meu coração bateu forte; eu tinha uma nova família.

Fomos para o quarto, onde fiquei sentado no colo da menina, enquanto ela me contava quem era, onde estudava, o que gostava de fazer e qual era o membro mais bonito da banda de rock que ela gostava. Depois de tudo, quis saber meu nome.

— Eu não tenho um nome — falei.

— Mas todo mundo precisa de um nome. Vou chamar você de Sr. Gato.

A menina pegou uma boneca de pano que estava em cima do travesseiro e nos apresentou.

— Sr. Gato, esta é a Inocência. Inocência, este é o Sr. Gato.

A Inocência também tinha cachinhos dourados, como todas as mulheres da família. Ela usava um vestido branco e me olhava com carinho. Gato também entende língua de brinquedo, e ela me disse, com a linha que formava sua boca, que havia gostado de mim.

O dia virou noite e, em poucas horas, voltou a ser dia. Saralinda acordou para ir à escola, Sarali pegou a cesta com rapaduras para vender, e Sara pegou um machado para cortar lenha. Dessa vez, resolvi acompanhar Sara na floresta.

O machado batia no tronco da árvore umas seis vezes, para que ela caísse. Depois, era só cortar a madeira em pequenos pedaços, para caber no fogão. De repente, ouvimos um barulho. Meu rabo comprido ficou de pé, e os cachinhos de Sara até arrepiaram. Um urso apareceu.

O urso tentou explicar por que estava ali: só queria brincar! Mas gente grande não entende língua de urso, e a vovó ameaçou bater nele com o machado. Ele voltou para a floresta, e nós voltamos para casa.

Não demorou muito, e Saralinda chegou da escola. Tirou os sapatos, jogou a mochila num canto e pulou na cama. Veio me contar como foi o dia.

— O Paulinho disse hoje que o Papai Noel, na verdade, é o pai da gente. Será que é por isso que não tenho um pai? Ele está no Polo Norte, fazendo presentes para todas as crianças do mundo?

Eu não sabia o que responder e preferi dar um miado preguiçoso. Saralinda coçou minha barriga. A Inocência assistia à cena e sorria.

Mais uma vez, o Sol foi embora, para a Lua e as outras estrelas poderem aparecer; mas logo ele voltou e escondeu todas elas. Nesse novo dia, resolvi acompanhar Sarali, na venda de rapaduras.

Para chegar ao outro lado da cidade, pegamos um atalho na floresta. A cesta de Sarali parecia pesada, mas a tranquilidade no rosto dela mostrava o contrário. De repente, ouvimos um barulho, que era o mesmo do dia anterior. O urso apareceu e disse que só queria brincar, mas Sarali se assustou e deu um berro que quase deixou todo mundo surdo. O urso foi embora.

Quando voltamos para casa, Saralinda já estava lá, fazendo tranças na boneca. Quando me viu, me pegou no colo e começou a contar:

— A Cicinha disse hoje que Bicho Papão não existe, que é só o medo que a mãe da gente coloca, pra gente não fazer malcriação e nem ficar acordada até tarde. Mas, se a mãe só quer o bem, ela não ia inventar essas coisas que dão medo, não é mesmo?

Decidi não responder nada e rocei o corpo nas pernas dela. Saralinda achou fofo e foi buscar uma tigela de leite pra mim. A Inocência mantinha o brilho dos cabelos.

O céu escureceu, mas logo voltou a clarear. Era sábado, e eu podia passar o dia inteiro com Saralinda. Ela queria brincar na floresta, mas a mãe disse não.

— Tem um urso muito perigoso circulando por aí. Melhor ficar em casa.

Mas foi só a mãe e a avó saírem que o dispositivo de obedecer às regras se desligou. Saralinda pegou Inocência, pegou uma bola que estava em cima do guarda-roupa e me chamou para ir junto. Não concordei com a saída sem permissão, mas eu era apenas um gato caolho do rabo comprido; não tinha que concordar com nada.

Na floresta, a menina jogava a bola para que eu pegasse, e eu empurrava para Inocência. A boneca era preguiçosa e não jogava de volta para a menina. De repente, ouvimos o mesmo barulho dos dias anteriores. Um urso apareceu, e Saralinda se assustou, mas ficou quietinha, parada, esperando o que ele tinha a dizer.

— Ei, garotinha! Posso brincar também?

— Não sei... Minha mãe não me deixa falar com estranhos.

— Mas menina crescida brinca com urso que não é de pelúcia.

A menina se lembrou do que a mãe havia dito, que o urso era perigoso, mas ele parecia tão carente. Não custava brincar um pouquinho.

— E qual é que é o seu nome? — Saralinda disse.

— O nome não importa. Você pode me chamar de Amigurso.

Eu não gostava daquela história de Saralinda ficar brincando com o Amigurso, porque nem o conhecia. Mas comecei a pensar que, já que Saralinda e Inocência haviam gostado tanto dele, eu é que estava sendo chato demais. Enquanto eles se divertiam, aproveitei para cochilar.

— Socorro! Socorro, Sr. Gato! Socorro!

A voz desesperada de Saralinda me fez acordar rapidamente e me colocar em posição de ataque, com o único olho arregalado e o longo rabo eriçado. O Amigurso já estava distante, carregando-a no colo e levando-a floresta adentro.

Resolvi usar minha agilidade felina para segui-los. No meio do caminho, encontrei a boneca, que provavelmente havia caído das mãos da menina. Não ia deixar que Saralinda perdesse a Inocência; peguei a boneca com a boca e continuei correndo atrás do urso mau.

Cheguei à frente de uma caverna e pude ouvir a voz de Saralinda lá dentro.

— Por favor, Amigurso, não me machuque. Prometo que não jogo mais a bola com tanta força.

Pude enxergá-los em frente de uma mesa cheia de flores. Ele resmungava:

— Agora, você é minha criada. Quero mel! Faça mel para mim.

— Mas, com tanta abelha na floresta, por que precisa que eu faça o mel?

— Porque mel de menina humana é mais gostoso.

Entrei escondido na caverna. Saralinda estava tirando o néctar das flores quando me viu.

— Sr. Gato, você veio! E me trouxe a Inocência de volta.

A menina pegou a boneca e arrumou-lhe os cabelos, que já não tinham mais brilho. Então, chorou de maneira soluçada. O urso ouviu o pranto e tentou agradar.

— Não chore, menininha! As lágrimas vão deixar o mel salgado.

A menina não escutava; continuava lavando o rosto com o líquido que saía dos olhos. O urso tirou um pirulito de morango do bolso e lhe entregou.

— Tome! Vai animar. Pirulito igual o meu, você não encontra em nenhum outro lugar.

Saralinda não queria pirulito; só queria voltar para casa. Mas a Inocência sussurrou algo no ouvido dela, e ela começou a chupar o doce. Tinha gosto de morango, mas era de um morango diferente dos morangos que já havia comido. Ela não gostava daquele gosto; mesmo assim, evitava a cara feia.

Eu queria um plano para tirá-la da caverna, mas não conseguia pensar em nada. O tempo passou e mais uma noite chegou. A menina já tinha feito muito mel e, agora, tremia de frio.

— Venha se deitar, menininha! — o urso disse. — Aproveite que meu pelo é quente e pode aquecer nós dois.

Enquanto Saralinda era abraçada pelo urso, abraçava Inocência. O urso não estava satisfeito em dividir a cama com a boneca e, com uma patada certeira, jogou-a no chão.

A menina deu um pulo e desceu para pegá-la. A patada havia arrancado um dos braços, rasgado parte do rosto e sujado o vestido branco. Uma lágrima quis ver a boneca de pertinho e saiu do olho de Saralinda, que pegou a pequena no colo e suspirou.

— Amigurso, você feriu minha Inocência.

Então, vi que não podia mais ficar parado. Saí em alta velocidade pela floresta e cheguei à casa das Cachinhos com a língua para fora. A avó e a mãe estavam bem tristes, lamentando pelo desaparecimento de Saralinda.

— Veja, Sarali! — a avó disse. — É o gato dela.

— Vamos, bichinho! — a mãe disse. — Diga onde é que a Saralinda está.

Fiz com que elas me seguissem até a caverna. Quando elas viram o animal, Sarali arrancou uma rapadura do bolso e a atirou bem na cabeça dele, e Sara usou um pedaço de madeira que havia por perto para expulsá-lo a pauladas. O urso fugiu.

Saralinda correu para os braços da mãe, numa cena comovente. Comecei a perguntar para ela se estava tudo bem, se ela tinha algum ferimento, se eu podia ajudar em mais alguma coisa. Mas ela parecia não entender nada além de alguns miados. Então, com os olhos ainda molhados, falou à sua mãe:

— Que gato feio, mamãe! Ponha pra fora, ponha?

Vi as Cachinhos Dourados tomando o caminho de volta para casa, até sumirem entre as folhagens. Do meu lado, a boneca estraçalhada era o sinal de que Saralinda havia perdido definitivamente a Inocência.

sábado, 21 de julho de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Seja minha namorisne, que serei seu patorado



Nunca pensei em um dia chegar e te ouvir dizer:
Não é por mal, mas vou te fazer chorar.
PATO FU, Canção pra você viver mais.

Topete de pato deveria se chamar topato. Sempre fico pensando que seria bem melhor se tudo que é relacionado a um bicho tivesse um nome que fizesse lembrar o do tal bicho. Assim, como sou um gato, levaria gatombos quando caísse, e minhas patas deixariam pegatas por onde passassem.

Mas estou me questionando do topato, ou melhor, do topete de pato, porque esses dias, enquanto tentava capturar alguns peixes com minhas unhas afiadas, vi um patinho olhando o próprio reflexo na água. Ele era bonito do topete à pata. Aliás, pata é um nome corretíssimo para dar aos pés do pato.

Fiquei escondido atrás de um arbusto, para vê-lo se admirar, como se fosse a joia mais preciosa do bosque. Não demorou muito, algumas patinhas passaram perto do rio. Estavam à procura de uma sombra, para fazerem um piquenique. Quando viram o patinho, não resistiram a tanta beleza e suspiraram:

— Ai, como eu gostaria que o Adônis fosse meu patorado!

— É... Não existe patinho no mundo mais bonito do que ele.

Minhas gatorelhas conseguem escutar a longa distância. Continuei prestando atenção ao que acontecia e ouvi quando elas o convidaram para o piquenique:

— Adônis! Ô, Adônis! Venha comer um sanduíche com a gente. Tem de alface com milho e tem de atum.

— Obrigado, meninas. Mas ficarei aqui, olhando para o rio. A água é uma excelente companhia, sabiam?

As patinhas se foram, e ele continuou com seu ritual. De repente, um cisne charmoso e delicado passou nadando perto dele; era uma fêmea cor-de-rosa que deslizava pela água com a elegância de uma bailarina.

Adônis se apaixonou pela ave à primeira vista. Não perdeu tempo e entrou na água para iniciar uma conversa com ela. Pensou em conquistá-la, contando-lhe uma piada.

— Ei, sabe o que o pato faz quando quer dar o fora em alguém?

— Não, o que ele faz?

— Dá uma patada.

Para a infelicidade de Adônis, ela não riu. Possivelmente, cisnes não entendam piadas sobre patos, bem como patos não entendem piadas sobre gansos. É a lei do humor animal! Gatos, sim, entendem sobre tudo um pouco. Talvez seja por causa do nosso bigode engraçado.

— Eu me chamo Adônis.

— E eu sou Cyz.

Cyz sabia que a intenção de Adônis não era unicamente agir como um comediante de stand up — ou, no caso, stand-uck. Pediu para que ele fosse direto ao assunto, que saísse do zero a zero, que desempatasse logo a conversa, que tomasse coragem para...

— Eu amo você! Quack! — ele disse. — Quer ser minha patorada?

— Adônis... Como posso ser sua patorada, se sou um cisne?

— Então, seja minha namorisne, que serei seu patorado. Sei que sou bonito e que todas as patinhas sonham comigo. Você também pode sonhar. O que preciso fazer para você me aceitar?

Cyz resolveu dar uma volta ao redor de Adônis. Olhou e analisou cada parte do seu corpato. Em seguida, respondeu à pergunta.

— Você é lindo, mas é muito fraquinho. Só aceitaria ter algo com você, se fosse um pouco mais forte.

Aquilo foi tudo que Adônis precisava ouvir. Nadou até a margem do rio, saiu da água e correu bosque adentro.

Sei bem sobre aquilo que dizem, de que “a curiosidade matou o gato”, mas eu não poderia deixar de ir atrás dele. Assim, vi quando o patinho começou a malhar, sem parar, fazendo flexões, levantando galhos de árvores e arremessando pedras.

— Vejamos se, depois dessa malhação, não serei bonito suficiente.

Depois de um tempo, ele voltou para o rio e ficou olhando seu reflexo na água: estava com as asas mais musculosas, com o bumbum mais empinado e com as patas mais grossas. Gostava de se olhar, ainda mais lindo, ainda mais forte. De repente, a água tremeu, e Adônis percebeu que Cyz se aproximava.

— Hum, vejam só! — ela disse. — Está com um visual mais atlético.

— Sim, sou o patinho mais bonito de todo o mundo. Pode acreditar! E agora, você aceita ser minha namorisne?

— Ainda não. Como é que poderemos nos beijar, se temos bicos tão diferentes? O seu é totalmente chato e parece até uma pá de pedreiro. Enquanto você não tiver o bico mais fino, não podemos ter nenhum compromisso.

Não adiantava fazer bico. A opinião de Cyz era incontestável. Olhando para a água, ele compartilhou o mesmo sentimento: o bico realmente enfeava sua face. Ele precisava encontrar um jeito de arrumar aquilo, nem que fosse com cirurgia pática.

Do nada, ele arregalou os olhos; isso era sinal de que havia tido uma ideia. Saiu correndo para dentro do bosque, e eu o segui, esgueirando-me entre as árvores. Ele pegou duas pedras e começou a lixar o bico.

— Quero só ver se, depois dessa afinação, ainda não serei bonito suficiente.

Lixou, lixou, lixou, até que o que era chato se tornou cilíndrico. Assim, voltou para o rio, encantou-se com o próprio reflexo e, depois, chamou Cyz.

— Cyz! Cyz! Veja... Estou forte e com o bico fino. Agora, sou ainda mais belo.

— Hum... Mas ainda falta algo em você. Seu pescoço é tão curtinho. Se você não tiver o pescoço mais longo, não conseguirá me alcançar para me olhar nos olhos.

Adônis via novamente sua imagem na água: já era um pato bonito, mas é claro que, se esticasse o pescoço, ficaria elegantíssimo.

Correndo, mais uma vez, Adônis escondeu-se dentro do tronco de uma árvore. Fui atrás e o vi empurrando a cabeça para um lado e para o outro, para frente e para trás. Forçava a musculatura do pescoço para que crescesse. Fez isso várias vezes, até que ficou parecido com uma girafa em miniatura.

Ele se aproximou da beira do rio, inclinou-se e viu uma figura muito diferente da que ele era no início: o pato Adônis havia se transformado em um cisne perfeito, um lindíssimo cisne branco. Estava ansioso para se mostrar à Cyz.

— Cyz! Cyz! Cadê você?

Mas a jovem rosada havia desaparecido. Adônis entrou no rio e nadou por todos os cantos para encontrá-la. Tentei ajudar, pulando de arbusto em arbusto. De repente, foi possível enxergar a imagem dela, escondida entre as folhagens. Ao seu lado, no entanto, havia um lindo cisne azul-claro.

Coração de gato é menor do que coração de gente humana, mas se comove com a mesma facilidade. Quase chorei ao ver a tristeza nos olhinhos de um pato que, depois de tanto sofrimento, perdeu a amada para outro.

Sentado à beira do rio, Adônis mantinha o olhar baixo, ora admirando sua imagem refletida na água, ora tentando enxergar o horizonte, onde se formava uma violenta cachoeira. Saí da zona de conforto, cheguei perto dele e resolvi conversar.

— O amor não tem espécie, não é mesmo?

— O quê? Quem é você? Vai me devorar?

— Calma, meu amigo. Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

Adônis ainda estava assustado, pois não entendia o que eu queria com ele. Mesmo assim, tentei animá-lo.

— Você é o pato mais bonito que já conheci. E tem esse topete incrível! Agora, então, está tão belo quanto um cisne branco.

O patinho franziu o cenho e levantou a vista. Os olhos arregalaram outra vez: teve uma nova ideia.

— É este o problema: eu sou branco!

— Como é?

— A Cyz só se interessou por aquele outro cisne, porque ele é azul-claro, uma cor tão rara quanto a dela. É isso! Preciso tingir minhas penas. Quero ficar da cor do ouro e, aí sim, conquistarei seu coracisne.

Adônis parecia disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para ter o amor correspondido. Saltando como um pato mal-acostumado com as mudanças físicas, colheu algumas flores. Em seguida, retirou o néctar de cada uma delas e espremeu tudo em seu corpo. O líquido amarelo trataria de deixá-lo totalmente dourado.

Logo veio o resultado: Adônis, além de ser tão belo quanto um cisne, estava tão dourado quanto uma pepita reluzente. Não havia como disputar com tamanha beleza.

No entanto, um zum-zum-zum foi ficando cada vez mais alto. Meu instinto de gato soube que coisa boa não podia ser. Quando Adônis se virou, um enxame de abelhas vinha em sua direção.

— Por favor, não me ferroem — ele dizia. — Não fiz nada para vocês.

— Desculpe, mas precisamos colher o néctar para fazer o mel, e você usou o de todas as flores. Agora, precisamos pegá-lo de você, ainda que seja dolorido.

Mesmo tomando cuidado, as abelhas acabavam ferroando Adônis. Ele ia ficando mais vermelho e inchado a cada picada. Em desespero, ele correu até o rio e pulou. As abelhas, que são como gatos e odeiam água, foram embora.

Ao sair, o estado de Adônis era lamentável: as ferroadas o deixaram deformado, e a tintura, mesmo sendo natural, fez com que a maioria das penas caísse. O topete era a única coisa que continuava intacta no patinho.

Nesse momento, um grupo de patinhas passou, e uma delas comentou:

— Gente, veja! É o Adônis. Dá para reconhecer pelo topete.

— Imagine, amiga! Onde já se viu comparar o Adônis com essa criatura horrível? E vamos embora, porque essa feiura faz meus olhos arderem.

Desiludido, Adônis sentou-se na beira do rio, apreciando sua imagem: os músculos o deixavam parecido com um ogro; o bico fino o fazia parecer um acidentado; o pescoço longo era desengonçado e molenga; e a falta de penas mostrava que ele havia se transformado em um monstro.

Cyz e o cisne azul-claro passaram por ele, indiferentes, com suas asas entrelaçadas. Achei melhor não me aproximar. Adônis derramou uma lágrima, e o reflexo estremeceu. Do fundo do rio, uma voz falou:

— Por que um patinho tão lindo como você está tristonho assim?

— Lindo, eu? Sou uma aberração da natureza!

— Imagine. Você é igualzinho a mim. Venha, seja meu par.

Talvez as águas estivessem certas; afinal, elas eram a melhor companhia. Adônis entrou no rio e seguiu na direção da correnteza, até desaparecer completamente no horizonte.

sábado, 14 de julho de 2012

Sinestesia, oximoro e anadiplose


1º lugar no concurso de crônicas da AMLAC – Vinhedo/SP


Meu mal de nascença é a preferência por coisas incomuns; sempre fui o patinho feio que rodeia o lago dos cisnes. Nas aulas de educação física, todos brigavam pela bola de futsal, mas eu só queria saber do tabuleiro de ludo. Nos fins de semana, todos idolatravam o sol, mas eu adorava os sábados e domingos chuvosos. Nas baladas, todos carregavam o frasco de vodca, mas eu só segurava o copo com suco de abacaxi.

Na faculdade, não foi diferente. Cada um tinha sua própria paixão por uma das áreas do curso de Letras: uns eram rígidos na gramática; alguns, meticulosos na linguística; outros, fantasiosos na literatura. A amplitude da Língua Portuguesa, no entanto, me permitiu ser diferente (de novo) e escolher me especializar em outro campo: o da estilística. A maioria dos meus colegas nem sabia o que era isso.

— Estatística?

— Não. Estilística!

— Ah, aquilo de fazer vestido de noiva.

Quando eu tentava, humildemente, explicar que se tratava de estudar o estilo da palavra, a decepção era notável:

— Tanta coisa para fazer, e você fica dizendo se a palavra é feia ou bonita?!

De nada adiantavam meus solilóquios sobre funções, vícios e figuras de linguagem. Era inútil mostrar que há nome para quando se mescla sentidos, ou se fala de modo contraditório, ou se repete a última coisa que foi dita; sinestesia continuava sendo aquilo que o médico aplica para o paciente relaxar, oximoro permanecia uma marca de alvejante e anadiplose ainda era nome de uma tribo indígena do sul do Mato Grosso.

Os dias iam passando, e as pessoas insistiam em ignorar a pobre estilística, mas eu me viciava cada vez mais. Passei a fazer análise do discurso em simples conversas. Meu namoro terminou por culpa disso.

— Eu te amo do tamanho do mundo.

— Hipérbole!

— O que foi, gatinho?

— Metáfora!

— Dá pra parar de gritar alto?

— Pleonasmo!

— Faça isso mais uma vez e estes dedinhos vão balançar num ritmo de despedida.

— Eu... Eu...

— ?

— Eufemismo.

Solteiro, sentia-me socialmente sofrível e só conseguia pensar na aliteração que isso provocava. Foi nessa ocasião que alguns amigos me levaram para o bar da universidade e, por acaso, foi anunciado que já estava decidida a sede para a Copa do Mundo de 2014. O balconista exaltou:

— A Copa do Mundo está vindo para o Brasil!

Cheguei a emitir uma onomatopeia — boom! — quando ouvi essa maravilha de personificação. Já havia analisado personificações de todos os tipos: animais, objetos, roupas, astros, datas e até sentimentos. Mas uma prosopopeia de evento internacional era novidade para mim. Pude imaginar aquela festa toda, com estádio e gente e barulho e bandeiras e polissíndeto, dando corridinhas até chegar ao Brasil.

— Querem outra novidade? Acabaram de confirmar que as Olímpiadas também virão para a Cidade Maravilhosa!

Nem dei tanta importância para a perífrase relacionada ao Rio de Janeiro; a personificação, do mesmo tipo da anterior, estava presente novamente. E, enquanto eu pensava a respeito disso, tudo começava a se modificar: novos estádios, novos hotéis, reformas nas cidades, reforma nos próprios brasileiros.

Ocorria uma espécie de metonímia da vida real, a transformação do quase nada para o tudo, uma sinédoque do todo pela parte: o Brasil se modificava. Aí alguém comentou da tradicionalidade, se as cidades não perderiam seu valor histórico e cultural com tantas mudanças.

A pergunta não era dirigida exatamente a mim, mas confesso que só consegui, mais uma vez, pensar na estilística. Assim, responderia: a conotação não destrói o sentido denotativo; apenas o embeleza. Mas não consegui. Analisei meu pensamento, a metáfora que foi utilizada para construir outra metáfora.

— Metalinguagem! — berrei.

sábado, 7 de julho de 2012

Primorados



Cheguei à casa de Caroline pedindo vitamina de morango, mas a polpa havia acabado. Pensei em pedir um beijo para que o batom se encarregasse de transmitir o sabor da fruta, mas me contive. Calei o coração, respirei fundo e me contentei em sentir seu perfume com aroma de frutas vermelhas.

Vermelhas como as notas que nunca tirei. Sempre tive a sorte de me sair bem em praticamente tudo o que me proponho a fazer: estudo, trabalho, artes. Dizem que sou uma pessoa felizarda — mas isso porque ninguém coloca o amor nessa avaliação. Aos 18, já me considero marcado pelas frustrações amorosas.

Posso não demonstrar, mas é certo que prefiro a tragédia. Inexplicavelmente, me sinto bem em falar sobre os foras, as torcidas de nariz e as diversas viradas de rosto que já levei. É como se, falando, a realidade se transformasse em ficção e ficção doesse menos.

Supondo que as garotas possam ser classificadas como frutas, minha primeira paixão foi um açaí. Ela estudava em outra escola, região distante. Conhecia-a pessoalmente, mas achava que com o Orkut eu chegaria até ela mais rapidamente. O resultado foi que, enquanto eu upava meus arquivos em conexão discada, um garoto off-line a tomou com guaraná antes de mim. Daqui surgiu um conto.

A paixão seguinte foi uma laranja, a fresquinha que era consumida por todos os meninos da escola. Talvez a desejasse somente por ser menino e ser da escola. Mesmo assim, deixei meu romantismo meloso lutar contra a luxúria cítrica dela e me declarei por SMS. Ela se tornou lima, mas foi pela doçura que sentiu por uma ligação que chegou antes do meu torpedo. Daqui surgiu outro conto.

Decepcionado sentimentalmente, misturei ambas as frutas e fiz um energético que me deu forças para escrever um romance juvenil de amor não-correspondido. As cento de vinte páginas foram lidas e despertaram a identificação de diversos outros cujas frutas não lhes cresciam no pomar.

Até esse ponto, acreditava que, mesmo dramática, minha vida amorosa era original. Quando percebi que nem nisso conseguia evitar o clichê, o assumi de vez e tratei de me apaixonar pela minha melhor amiga.
Ela era uma banana, estava sempre presente. Sabia que me amava e todo mundo confirmava isso. Por isso a surpresa foi grande quando lhe compus uma música e parei de ouvir sua voz. Minha melodia se perdeu em desarmonia quando ela me fez cair em sua casca e entrou em período antitropical, como se não existisse mais para mim.

Nisso virei a página e conheci uma ameixa que me levava a sério, tão a sério que impedia minha aproximação para que não me machucasse com o caroço. A banana resolveu reaparecer e desenvolver a péssima mania de fazer simpatias desejando minha morte. Fiquei tão preocupado com isso que não me atentei quando a ameixa já estava servindo de enfeite para outro manjar.

Estava cansado de ser vítima das garotas e resolvi desabafar com um amigo, o qual era o único que parecia ser capaz de me entender. Era como uma baunilha, especiaria inconfundível. Os blá-blá-blás dele me fizeram esquecer o mundo feminino e passaram a dar um sabor diferente à minha vida.

A afinidade era tanta que quando comentei foi sem muito nervosismo e o choque que ele levou não foi forte, pois também curtia uma salada de vegetais. Pensei que, já que não havia dado certo com as frutas, daria com as plantas — ou melhor, com a única planta pela que aconteceu de eu me apaixonar. Mas ele não me permitiu tocar em seu pólen.

Com o tempo, vi a baunilha se transformando em um sorvete de creme e, mesmo sendo chupado por vários, esse loiro gelado não deixava que eu tirasse nem uma casquinha.

Então fiz meu relatório: se não dava certo nem com meninas nem com meninos, nem com frutas nem com plantas, o problema estava em mim. Concluí que a melhor maneira de não dificultar as coisas era abrir mão delas.

Mas, aparentemente, as dificuldades me perseguiam. Pouco tempo depois, tentei, mas não pude ignorar o amor que passei a sentir por Caroline, que não conheci pela internet nem tinha namorado, mas cujos pais eu chamava de tios.

Já fomos confundidos como um casal diversas vezes. Dizemos, portanto, ser primorados. Os beijos estão descartados, bem como as carícias íntimas, mas ambos nos relacionamos muito amigavelmente. Eu me sinto muito bem ao lado de Caroline e — posso estar enganado — noto reciprocidade.

O namoro entre primos, no entanto, por mais que tenha se tornado comum, ainda choca toda a família. Como tudo o que é chocante me causa dores estomacais, evito a gastrite nervosa deixando que o relacionamento amoroso aconteça somente na imaginação.

Queria lhe provar o morango do batom. Queria lhe aspirar o morango da fragrância a todo  instante. Queria ser o elefante audacioso que pinta as unhas de vermelho para entrar escondido no campo de morangos. Mas prefiro evitar transtornos criando ilusões antes de dormir.

“No Natal, a pedirei como presente.” E, para ajudar, ela me tirara no amigo-secreto.

“No Réveillon, a cumprimentarei nos lábios.” A meia-noite realmente trouxe a vontade, mas não a coragem necessária.

“Um dia a levarei no cinema e...” Os pensamentos terminam sempre da mesma forma, mas continuam apenas pensamentos. Sonhar é mais garantido do que agir.

Tenho certeza de que um dia contarei e tenho certeza de que nunca contarei. Devido ao paradoxo de certezas, prefiro estabelecer como certo o fato de que sempre seremos primos e de que, com abraços fraternais, poderei apreciar seu cheiro e a cor da sua boca. Poderei viver rondando o campo de morangos para sempre.