Uma vida sempre real se torna chata. Por isso, existem os textos literários. Eles têm a missão de divertir a realidade!
sábado, 13 de abril de 2013
Kit Deixa Feliz
— Pergunto-te: o que te deixa feliz?
— Eu?
— Respondo-te: o Kit Deixa Feliz!
— Oi?
— O Kit Deixa Feliz atende todas as suas necessidades, a fim de proporcionar muito mais felicidade. Como, por exemplo, o melhor para sua cozinha!
— ...
— Garfo Dido: os dentes que faltavam na sua boca.
— ...
— Faca Gado: basta deslizar sobre o bife.
— ...
— Colheres Pupunha: finas... como uma lasca de unha!
— Pupunha?
— Sim, e agora em três tamanhos: a tradicional Pupunha, a Pupunhona e a Pupunheta. Esta é ideal para aqueles momentos em que você precisa mexer o ovo, antes de pincelar o alimento.
— ?
— Pupunheta: quando você for bater gema!
— !!!
— Mas o Kit Deixa Feliz também traz produtos encontrados diretamente no cosmos: os cosméticos.
— Perdão, mas eu...
— Fixador de Cabelo Viagra Hair: deixa seu cabelo duro e em pé!
— ...
— Antiacne Filé de Tilapia: sem espinhas!
— ...
— Desodorante Trava Língua: você sem cecê!
— Meu senhor, eu...
— E inspirado na série de livros e filmes “Crepúsculo”, os inventores do Kit Deixa Feliz enfrentaram o maior rolo, mas conseguiram trazer especialmente para você o primeiro papel higiênico no aroma pinho.
— ?
— Papel Higiênico Cullen: porque, com Cullen Pinho, você é muito mais feliz.
— !!!
— O Kit Deixa Feliz também pensa nos seus estudos, por isso ele traz a melhor seleção de materiais escolares.
— Sinto muito, senhor, mas...
— Lápis Ponte: também conhecido como Ponte Pencil.
— ...
— Caneta Pena de Galinha: não escreva; bique!
— ...
— Borracha Confissão: a única que apaga todos os seus erros.
— ...
— Cola Ex: a melhor para a escola.
— ...
— Tesoura Joquempô: só perde para a pedra.
— ...
— Folha Sulfite...
— ???
— E também Nortefite, Lestefite e Oestefite: abrangendo toda região que existe.
— Desculpe-me, mas...
— E não podemos nos esquecer do Superdicionário Vó Zides, cuja ortografia é tu que decides.
— Vó Zides?
— Eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos... Que chato! Vó Zides é que é um barato!
— É tudo muito bonito, mas realmente eu não tenho interesse...
— Ah, e adquirindo hoje o Kit Deixa Feliz, você leva mole, mole um ano de assinatura grátis da Revista Me Olhe. Não VEJA mais as notícias de sempre sobre a sua cidade; Me Olhe traz apenas manchetes de qualidade!
— Você disse “grátis”?
— Mole, mole!
— Um ano inteirinho?
— Todos os exemplares, vindos direto do Mercado Deus Me Livre.
— Tá bom, eu fico com o kit!
sábado, 6 de abril de 2013
Crônica resumida
q
coisa + irritante esse laptop que soh da dor de kbca ! agr a maravilha do plug
resolve quebrar e a fonte para de trnasmitir energia. a bateria acaba e sou obg
a escrever nas minusculosidades deste celular. com os dedos grossos q tenho, n
duvido q o txt fik com alguns (e algoutros) erros de digitacao. a vdd eh q nuna
tive sorte com produtos eletronicos. se duram + de 6 meses na minha mao, eh
9dade. se duram + d 1 ano, entao, posso ateh elogiar mto no twitter. e tbm n
adianta comprar aquele marketing da garantia estendida q, dps do 1o. defeito,
vem um segudio do outro. teve uma vez que resolvi comprar um celular desses
site compredachina q existem com os mais variados dominios de url. o site dizia
que a entrega seria em 15 dias, por apenas 99 reais, num iphone (ou
"hipone", como eles chamavam) branco e ultramoderno. dps de longos 4
meses de espera, o cel chegou. ficou preso no correio e me arrancou ums taxa de
87 reais para a alfandega. veio a cor preta, durou 8 dias e a loja sequer
retornou meus e-mails d desespero. no fundo, essa tragica perda de dinheiro foi
suficiente para eu aprender a n comprar em loja que n emita nota fiscal. agr
tenho um cartao da submarino e compro somente no e-commerce legalizao. :) este
cel em q escrevo, p.ex., eh branco, ultramoderno, samsung e ainda me foi
vendido por 20% de desc pq sou cliente vip da loja. aqui chega o momento da
cronica em q, no pc, eu criaria links. falaria do mp5 que sofreu blecaute, do
cel q ficou mudo d repente, do note cuja bat era uma bexiga q tinha q urinar a
cada 5 min (e esvaziava total), do radio
q soh funcionava se ficasse segurando a antena... mas me encerro por aqui. os
polegares ja tao doendo e eles n tem nem garantia de fabrica.
sábado, 30 de março de 2013
Eliana
Houve um momento, na entrevista coletiva de emprego, em que a psicóloga nos perguntou: “Quem você considera um herói?” Nesse momento, começaram os clichês: “Meu pai, que foi cangaceiro!”, “Minha avó, que levava água até o sertão!”, “Dom Pedro I, que nos tornou independentes!”, “O dono desta empresa, que é um homem sério, culto e responsável!”, etc. Quando chegou minha vez, disparei: “Minha heroína é a Eliana!” e recebi os olhares mais assustadores possíveis, como se eu cometesse um crime inafiançável por venerar uma apresentadora de televisão.
Não posso discordar de que meus pais foram verdadeiros guerreiros por terem me colocado no mundo e suportado tanto sufoco comigo; que minha avó foi uma batalhadora por cuidar de um bebê chorão que só sabia pedir suco de banana-maçã; que o dono da empresa foi um notável conquistador, pois conseguiu transformar uma lojinha do interior em um grande império empresarial... Porém nenhum desses se compara à Eliana.
Ai de meus pais se souberem desse meu pensamento... Ai de mim! Mas se formos elencar os motivos, quem era que me fazia companhia toda manhã, ainda que pela tevê, enquanto todo mundo saía para trabalhar?, quem transformava minhas lágrimas infantis de mamãe-já-tô-com-saudade em sorrisos inocentes?, quem foi que me ensinou a dizer “por favor” e “obrigado” e a usar tesoura sem ponta?, quem até hoje tira o tédio dos meus domingos e diverte meu estresse com quadros interativos e humor inteligente?
Os olhares continuavam ameaçadores, e eu fui obrigado a repetir: “A Eliana.” A psicóloga deu uma chacoalhada de cabeça e me fitou ainda incrédula. Especifiquei: “Eliana, a apresentadora, a loira, a dos dedinhos, ex-patotinha, mãe do Arthur, esposa do João Marcelo, cunhada da Maria Rita, embaixadora do Teleton...”
Alguns riram baixinho; outros faziam cara de bravos, como se eu estivesse levando tudo na brincadeira. A psicóloga mantinha a pose de psicóloga, indecifrável, mas que talvez fosse uma amostra de que estava gostando. Mas não estava. Não me contrataram. Alegaram que sou adulador demais e deram o cargo ao rapaz que escolheu o dono a empresa como resposta.
sábado, 23 de março de 2013
A maldição do peitinho
Nunca fui o tipo de cara que andava sem camisa, especialmente nos anos iniciais da adolescência. Mesmo que eu quisesse aliviar o calor ou pegar um bronze, decidia poupar a visão das outras pessoas, já que meu físico só interessaria a uma aula de ciências sobre análise de ossos torácicos. O único momento em que podia ficar despido sem causar danos aos olhos alheios era na hora do banho, e foi numa dessas duchas que constatei o fato: estava crescendo um peitinho.
O fenômeno aconteceu apenas no lado direito — o mamilo inchado, saliente. Olhava para aquilo e não sabia dizer se era um terceiro testículo que estava nascendo no lugar errado ou se alguém havia implantado uma pequena prótese de silicone enquanto eu dormia. Lembrei que já tinha ouvido que alguns meninos tinham “fimose”. Fiquei pensando se a palavra “fimose” queria dizer o mesmo que peitinho; mas as imagens nada bonitas que a internet me mostrou me fizeram perceber que esse não era o meu caso. Enumerei, portanto, três hipóteses sobre o que poderia estar acontecendo.
A primeira era que eu havia nascido hermafrodita. Provavelmente, enquanto bebê, uma cirurgia me deixou apenas com os órgãos sexuais de homem, mas, com o avanço da puberdade, meu lado feminino — como se as coisas funcionassem cientificamente assim — estava se desenvolvendo. Eu passaria a ter um único seio e, talvez, a menstruar pelo nariz ou pelo ouvido, além, é claro, de me tornar manchete no telejornal de domingo.
Outra ideia, ainda mais esquisita, era a de que alguém que não gostava de mim havia jogado uma maldição: a maldição do peitinho! Depois de uma reza braba feita com vaca preta em vez de galinha, eu estava condenado a ter um mamilo que inflaria como balão e um dia explodiria como um furúnculo gigante.
A última tentativa de justificar a situação era a de que eu estava com uma espécie de câncer de mama masculino. E isso começou a me preocupar tanto que fui ao médico. Chegando lá, mostrei o carocinho para ele.
— Doutor, é grave?
Ele sorriu e disse que era apenas um caso de ginecomastia, que acontecia com quase todo menino, que era uma concentração de hormônios, que logo voltaria ao normal, nada mais do que isso. Insisti:
— Tem certeza que não é macumba?
A boca dele tornou a dizer que não era nenhuma anormalidade, mas garanto que a mente pensou na seguinte resposta: “Esses adolescentes...”
sábado, 22 de dezembro de 2012
Quando a casa não tem chaminé, Papai Noel entra por onde?
— Fran, quando a casa não tem chaminé, tipo essa da vovó, o Papai Noel entra por onde?
— Eu não sei, Fabinho... Coca ou Fanta Uva?
— Fanta Uva!
Os primos conversavam, enquanto procuravam alguma guloseima na geladeira. Era véspera de Natal; devia ter chocotone em algum canto dali.
— Fran, veja como a lâmpada da geladeira está piscando: acende, apaga, acende, apaga...
— É, ela anda meio vaga-lume! Mas não é de se surpreender, já que a coitada é presente de casamento da vovó.
— Aquilo é um panetone?
O embrulho estava escondido atrás do pacote de vagens, que já permanecia ali há algum tempo, porque ninguém queria comê-las.
— É de frutas cristalizadas. Eca!
— Então, vamos ficar só com a Fanta Uva.
Enquanto bebiam, houve um minuto de silêncio; mas foi só silêncio externo, porque, no pensamento, Fabinho armava uma proposta:
— Fran, e se esta noite a gente ficar acordado para ver por onde é que o Papai Noel vem?
— E quem disse que é verdade que ele vem?
— Vem, sim! Eu vi a vovó tirando xérox da conta de telefone ontem. Tenho certeza de que foi para atualizar o endereço na lista de visitas dele.
A menina topou com um “tanto faz”, dando de ombros. A manhã foi entardecendo até anoitecer. A família se reuniu na sala de jantar, onde havia uma mesa larga e cheia de comida que a gente só vê em fim de ano.
— Fran, será que esse peru veio do Peru?
— Eu acho que era uma perua e que veio de Nova Iorque.
— Para mim, ele era um gavião disfarçado de peru. Trabalhava como detetive, gostava de funk e torcia pelo Corinthians.
A família comia tudo que estava por ali, menos as uvas-passas, que a vovó experimentou com uma lambidela e disse que havia passado do ponto.
Após a ceia, os adultos decidiram descer à praia, para esperar a meia-noite junto ao mar. A avó decidiu ficar em casa, pois estava cansada. Os primos disseram que fariam companhia à avó — mas, na verdade, só queriam esperar até a hora em que o Papai Noel chegasse.
A avó foi para o quarto, enquanto Fabinho e Fran jogavam pif-paf sobre o tapete da sala. De repente, ouviram um barulho na cozinha. Foram correndo ver o que poderia ter acontecido e se depararam com presentes em cima da mesa e a porta da geladeira se fechando.
— Veja, Fran! Será que o Papai Noel entrou pela geladeira?
— Mas é claro! Como não pensamos nisso antes? O refrigerador é o melhor atalho do Polo Norte até a casa das pessoas.
— Isso quer dizer, então, que as vagens são, na verdade, ajudantes do Papai Noel disfarçados de legume?
A garota concordou. Abriu a porta da geladeira, para ver se ainda dava tempo de ver alguma coisa. Mas tudo estava normal, com exceção das vagens, que não estavam mais lá, e da lâmpada que continuava piscando.
— É, a geladeira continua meio vaga-lume.
— Vaga-lume, não, Fran! Ela está árvore de Natal.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Era uma vez
Selecionado no Prêmio SESC de Literatura "Rubem Braga" — 2012
Saber se realmente os opostos se atraem ou se tudo não passou de uma mera coincidência não é de minha alçada. Sei apenas que receberei duras críticas, críticas construtivas e destrutivas, por ter dado meu último adeus ao bem-dizer e deixado a desejar com a estilística desta crônica. Embora pareça um comportamento inenarrável, tentarei agradar gregos e troianos ao revelar em alto e bom som esse segredo guardado a sete chaves.
Parece que foi ontem que a conheci, na aula de Literatura Brasileira. Era uma menina veneno, com olhos de ressaca e que dispensava quaisquer apresentações. De cabelos sedosos e nariz arrebitado, era uma bonequinha de luxo, cheia de não-me-toques. Era complicada e perfeitinha, uma virgem dos lábios de mel, mas que tinha um defeito incorrigível: abusava dos lugares-comuns.
Eu fugia dos vícios de linguagem como o diabo foge da cruz, então, digerir as palavras dela era chumbo grosso; corroíam em meu peito. Ela iniciava qualquer papo furado dizendo cobras e lagartos, fazendo caras e bocas. Eu fazia boca-de-siri para evitar o toma lá dá cá e colocava um ponto final na conversa. Mesmo assim, ela roubou meu coração e me fez ter uma vaga ideia do que é se entregar a uma paixão avassaladora.
— Mergulhei nas páginas de um livro — ela contava — tão sem eira nem beira que fico com vontade de tecer comentários que caiam como uma bomba no autor. Mas tenho medo de chover no molhado. Será que não é melhor correr por fora e fugir da raia na hora da resenha em vez de botar pra quebrar?
— É — eu respondia, enquanto pensava na morte da bezerra.
Ela dizia que só abria a boca quando tinha certeza, mas a minha certeza era a de que ela só assassinava a gramática. No fundo, esse jeito de ser a transformava em uma lenda vida. Talvez o cérebro dela fosse um esgoto a céu aberto ou tivesse sofrido uma lavagem cerebral quando criança, pois estava literalmente tomada pelos erros crassos. Eu arrastava a asa para ela, mas, para não dar bandeira, logo batia em retirada e respirava aliviado.
Virar a página, no entanto, não adiantava. De um leque de opções, ela era a única que preenchia minha lacuna. Era uma faca de dois gumes: ou ela ou a língua portuguesa. Tinha medo de meter o pé pelas mãos, mas não tive escolha: conjuguei esforços e pus as cartas na mesa. Por ela, tomaria banho gelado no inverno e iria a pé do Oiapoque ao Chuí. Ela podia cantar vitória e sagrar-se campeã.
Já na reta final, encerro esta crônica com chave de ouro, afirmando que chegamos a um denominador comum. Eu me entreguei a ela de mãos beijadas, dando um tiro de misericórdia no conhecimento linguístico que ainda tinha. Num futuro próximo, ela seria uma esposa dedicada que me daria um filho exemplar. Eu seria seu eterno apaixonado até que ela se tornasse uma viúva inconsolável.
Dei a cartada decisiva: desfiz o laço indissolúvel que tinha com o bom português e me aliei ao inimigo, afinal, quem vê cara não vê coração. E quem vê coração não dá muita importância ao lugar-comum, pois não há maior clichê do que morrer de amores.
sábado, 1 de dezembro de 2012
Toques de Leve
Entrou na loja, o olhar indecifrável. O tronco comprido estava coberto por uma manga longa de malha que destacava a magreza e combinava com o sobretudo. Sua preferência por cores escuras era notável pelo preto que descia da cartola e ia até os sapatos. Apoiou-se na bengala e caminhou mancamente até o balcão. Os dedos finos tocaram lentamente a madeira envernizada e a voz rouca pediu:
— Um frasco de arsênico.
Aterrissou a carteira perto do caixa e pegou calmamente o saquinho de papel que continha a cura para sua doença terminal. Foi para casa, colocou o vinil dos Beatles na vitrola e se sentou. Ao som de Paul e Lennon, deu três goles tranquilamente e repousou as pálpebras cansadas. Em poucos minutos, o espírito imergiu as profundezas do céu e foi tocado suavemente pelas estrelas.
Assinar:
Postagens (Atom)




