sábado, 22 de junho de 2013

iogurte de abacaxi



o rótulo exótico chamava atenção
dei um gole direto do frasco
iogurte com sabor de abacaxi
se fez de gostoso ao paladar
mas o líquido caiu sólido na barriga
gerou o mal-estar do café da manhã
indigestão cafeína
insatisfação cafetina

de repente passou na minha frente
o motivo das minhas gastrites
a mais plebe das minhas paixões
que de tão prosaica se tornou
poesia de elite
e o iogurte retornou do intestino

um átomo subiu da unha do dedão do pé
um átomo desceu da moleira da cabeça
e se encontraram em big bang na boca do estômago
espatifando-se em poeira microatômica
coleção de prótons, nêutrons e elétrons
penetrando coração, garganta, rim
e perdendo apenas para a acidez
do iogurte de abacaxi

sábado, 15 de junho de 2013

hife-



as microondas se amavam
e o calor desse sentimento
aquecia até alimento

mas um dia se divorciaram
chamaram o travessão
foi cada um para um lado
os olhos arregalados
o—o

nova onda
micro—ondas

depois disso
o micro saiu com o ônibus
e o eletro dançou com as ondas
mas micro—ônibus e eletro—ondas
não conseguiam se abraçar

então tomaram a decisão
micro e ondas iriam reatar
voltariam a ser microondas
o problema era que o
tra—ves—são
não podia mais se deslocar

uma vez colocado
eternamente travessionado

então micro e ondas tiveram uma ideia
e fizeram força para se aproximar

micro—ondas
micro–ondas
micro-ondas

não conseguiram fazer o traço cair
mas conseguiram encurtá-lo
e o hí-fen
mais incerto do que galo
lhes deu a esperança
de um dia poderem se beijar

sábado, 8 de junho de 2013

image



imagem
do livro
de Da Vinci
no porta-retrato
de Nossa Senhora

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do Rio
da televisão
em alta definição
da sua camiseta

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de Deus
do ex dando adeus
da educação brasileira
da atriz que posou nua

i
ma
gem

enigma

imagem
e semelhança
tão pálida
em jpg
de um osso quebrado

imagem
a primeira que fica
a vista da sacada
a da poesia estilizada

imagem
chuviscada

imagem
figura de linguagem

imagem

sábado, 1 de junho de 2013

madrugada de novembro



a vassoura 
varreu com tudo
as estrelas
para dentro do
chapéu pontiagudo

adeus, outubro!

o crucifixo
cruza que inda lembro
e os espíritos santos
colhem as dores
e guardam segredo

olá, novembro!

a pétala vermelha
desabrocha cheirosa
um veludo púrpura
na pele mimosa

na madrugada chuvosa
o coração poético
se refaz em prosa
e a poesia entrosa
um chá
de rosas

sinto em mim
um novo membro
novembro

curto o momento
enfrento a saudade
e apenas relembro

sábado, 25 de maio de 2013

pudim de leite



o pudim saiu do forno
foi desenformado
ainda morno
e finalizado com calda
de açúcar caramelado

branco e tinha coco
era consistente
não estava oco
nem perfeito porque
faltava um ingrediente

tirei um bocado
não o senti decifrado
um conto complexo
pontuação de Saramago

cheiro quente
gosto de branco
brincava com as papilas
mas um doce incompleto

insisti na insistência
colher pós colher
e assim foi engolido
do princípio à cauda

o último pedaço
tocou a campainha
da garganta
e abri a porta
do refrigerador

achei a ameixa seca
e de que adianta
se o pudim já acabou?

sábado, 18 de maio de 2013

coração de framboesa



meu coração é
feito de framboesa
feito sobremesa
perfeito para provocar
o efeito de prazer

minha emoção
está conforme a framboesa
está conforme a estação
de rádio
de trem
do ano
que vem

meu coração é oração
pai nosso, ave-maria
creio-em-deus-pai por nove dias
dessas que a gramática não explica
sem padrões sintáticos
mas que faz acontecer
por eu acreditar que acontece

meu coração é ração
pulsa me alimentando
e me mantendo vivo

meu coração é ação
mal pensa em mim
verbo defectivo

meu coração é ção
mas insiste hipocondriacamente
em se fazer de doente

meu coração é ão
no aumentativo
pois se compadece por tanta coisa
que parece não ser limitado
um polígono com milhares de lados
por isso sofre em múltiplos

meu coração é o
definido masculino
só sendo macho para suportar
tanta dor
tanto amor
e tanta rima clichê

meu coração é coração
em seus menores detalhes

sábado, 11 de maio de 2013

encapetado



pega o demônio pelo rabo
e sacode
dá-lhe um chute, pisa-lhe a cara, aperta-lhe o pescoço
arranca-lhe os chifres e depois sorri
senta e o convida para um chá

conversa com ele em voz alta
em língua de capeta
infernarium fogarentus
espera que ele revele
os teus segredos
entre as mordidas duma bolacha maria

recebe na cara o vômito da verdade de ti
descobre que não passas de um pelo púbere
que tua vida não será intacta para sempre
e deixa que a frustração escorra-te na alma
como o esperma escorre nos dedos de um adolescente

pega o demônio pelo rabo
e sacode
arranha-lhe o rosto, quebra-lhe as pernas, cospe-lhe no olho
espreme-lhe os testículos e enfia-lhe três dedos no cu
depois espera que ele sorria e te convide para um chá