sábado, 6 de julho de 2013

dia seis



dia seis
final da semana
início do mês

dia seis
apareces por acaso
desaparece a lucidez

dia seis
direciono um olhar caloroso
desvias daquilo que não vês

percebo como é complexa
a simplicidade do dia seis

és um fantasma
que me faz sobrar emoção
que me faz faltar ar em asma

és um fantasma
uma figura inexpressiva
que deixa minha expressão pasma

és um fantasma
e transforma em preto e branco
minha televisão de puro plasma

auge da saudade do que não vivi
sentimento catafórico
égua que dá esse coice de rotina
sentimento anafórico

sábado, 29 de junho de 2013

caminhão de lixo



foi uma manhã de descapricho
meu motor ligou com o diesel gelado
não tive vontade de entrar em movimento
mas a garagem empoeirava minhas velas

chegou o esquadrão de flanelas
a pancada de homens montou em mim
lixeiros que puxavam meu cabelo para se segurar
e a vontade de chorar me fazia poluir o ambiente

dominava-me interexternamente
o cheiro forte do elemento pútrido
expelido do tanque, expelido do coletor
e alimentavam-me com mais sacos 

passou um carro forte — e eu o fraco
prensando os sentimentos em angústia
as placas de ferro, os ossos quebrados
o coração, duas taças vazando chorume

o sonho que nos faz perceber
que não superamos uma fase que pensamos ter superado
é o sonho que nos faz perceber
que superamos a fase em que gostávamos de ter sonhos

havia lixo líquido degenerando em mim
havia lixo sólido sobrecarregando a mim
havia tanto lixo e manda mais pro lixo
e era tão demais prolixo
pois eu era o maior dos lixos

sábado, 22 de junho de 2013

iogurte de abacaxi



o rótulo exótico chamava atenção
dei um gole direto do frasco
iogurte com sabor de abacaxi
se fez de gostoso ao paladar
mas o líquido caiu sólido na barriga
gerou o mal-estar do café da manhã
indigestão cafeína
insatisfação cafetina

de repente passou na minha frente
o motivo das minhas gastrites
a mais plebe das minhas paixões
que de tão prosaica se tornou
poesia de elite
e o iogurte retornou do intestino

um átomo subiu da unha do dedão do pé
um átomo desceu da moleira da cabeça
e se encontraram em big bang na boca do estômago
espatifando-se em poeira microatômica
coleção de prótons, nêutrons e elétrons
penetrando coração, garganta, rim
e perdendo apenas para a acidez
do iogurte de abacaxi

sábado, 15 de junho de 2013

hife-



as microondas se amavam
e o calor desse sentimento
aquecia até alimento

mas um dia se divorciaram
chamaram o travessão
foi cada um para um lado
os olhos arregalados
o—o

nova onda
micro—ondas

depois disso
o micro saiu com o ônibus
e o eletro dançou com as ondas
mas micro—ônibus e eletro—ondas
não conseguiam se abraçar

então tomaram a decisão
micro e ondas iriam reatar
voltariam a ser microondas
o problema era que o
tra—ves—são
não podia mais se deslocar

uma vez colocado
eternamente travessionado

então micro e ondas tiveram uma ideia
e fizeram força para se aproximar

micro—ondas
micro–ondas
micro-ondas

não conseguiram fazer o traço cair
mas conseguiram encurtá-lo
e o hí-fen
mais incerto do que galo
lhes deu a esperança
de um dia poderem se beijar

sábado, 8 de junho de 2013

image



imagem
do livro
de Da Vinci
no porta-retrato
de Nossa Senhora

imagem
do Rio
da televisão
em alta definição
da sua camiseta

imagem
de Deus
do ex dando adeus
da educação brasileira
da atriz que posou nua

i
ma
gem

enigma

imagem
e semelhança
tão pálida
em jpg
de um osso quebrado

imagem
a primeira que fica
a vista da sacada
a da poesia estilizada

imagem
chuviscada

imagem
figura de linguagem

imagem

sábado, 1 de junho de 2013

madrugada de novembro



a vassoura 
varreu com tudo
as estrelas
para dentro do
chapéu pontiagudo

adeus, outubro!

o crucifixo
cruza que inda lembro
e os espíritos santos
colhem as dores
e guardam segredo

olá, novembro!

a pétala vermelha
desabrocha cheirosa
um veludo púrpura
na pele mimosa

na madrugada chuvosa
o coração poético
se refaz em prosa
e a poesia entrosa
um chá
de rosas

sinto em mim
um novo membro
novembro

curto o momento
enfrento a saudade
e apenas relembro

sábado, 25 de maio de 2013

pudim de leite



o pudim saiu do forno
foi desenformado
ainda morno
e finalizado com calda
de açúcar caramelado

branco e tinha coco
era consistente
não estava oco
nem perfeito porque
faltava um ingrediente

tirei um bocado
não o senti decifrado
um conto complexo
pontuação de Saramago

cheiro quente
gosto de branco
brincava com as papilas
mas um doce incompleto

insisti na insistência
colher pós colher
e assim foi engolido
do princípio à cauda

o último pedaço
tocou a campainha
da garganta
e abri a porta
do refrigerador

achei a ameixa seca
e de que adianta
se o pudim já acabou?