sábado, 29 de setembro de 2012

adeus, caipirinha!




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j           m         e          d          c
á          e          i           o          ê

sábado, 22 de setembro de 2012

Vida de Pedra



Desde que me conheço como pedra, percebo que não exerço bem essa função. Evito ao máximo atrapalhar, incomodar ou dificultar as coisas. As pessoas é que se atrapalham, se incomodam, dificultam tudo comigo.

Minha primeira experiência marcante foi quando eu ainda morava em uma caverna. Ali também vivia um homem barbudo, já de meia idade. Ele havia conquistado sua primeira amada, com a qual provavelmente se casaria e procriaria. Estava tão feliz que fez uma pintura rupestre sobre a família que sonhava em ter. Fui usada para registrar uma das maiores alegrias da vida de um homem.

Mais tarde, um grupo de trogloditas começou a me quebrar até me deixarem com um tamanho fácil para carregar. Do lado de fora, vendo pela primeira vez a luz do sol, senti lapidarem de um lado e de outro. De repente, me jogaram ladeira abaixo e rolei como se rola uma boa roda. Estive presente na maior invenção da época.

Depois de terem me utilizado por bastante tempo, não aguentei tanto impacto e me parti ao meio, o que me fez ficar isolada e sem utilidade naquele momento. Porém, com a chegada do período glacial, servi de abrigo para diversos insetos da era do gelo.

Séculos depois, tive as partes separadas. A distância entre mim e eu mesma foi um sofrimento necessário. Um lado foi trabalhado e utilizado como banco para a plateia do teatro grego se sentar; o outro participou da formação de um lindo palácio. Infelizmente, este foi explodido e o meu pedaço se desmanchou no ar.

Eu, o lado sobrevivente, continuei sendo útil por gerações. Participei inclusive da escravatura, aprisionando escravos. Confesso que não me orgulho desse meu feito.

Muitos anos depois, olharam para mim e enxergaram arte. Levaram-me para que eu fosse esculpida. Poliram daqui; poliram de lá. Ao terminarem, descobri que a arte vista em mim era a poesia. Protagonizaria diversos poemas a respeito da morte.

Meu destino foi virar lápide — pela minha eternidade de pedra, uma eternidade que pode ter um fim inesperado.

Durante o dia, as pessoas choram sobre mim. Após o pôr do sol, eu é que entro em prantos sem entender por que eu, que sempre fui a favor da felicidade, me tornei responsável por tanta tristeza. Certamente, não tenho um coração que condiz com a minha imagem.

sábado, 15 de setembro de 2012

Garota Terremoto



Um sonho que eu tinha na minha pré-adolescência pós-moderna era conhecer a Europa. Meu paladar até sentia os sabores do chocolate suíço, do salsichão alemão e da pizza italiana, só de imaginá-los. Depois que fui crescendo, as suíças, as alemãs e as italianas é que deram um novo gosto à minha juventude. Mas, vendo o tanto de desastres que acontecem do lado de lá do Atlântico, entrei numa desilusão barroca.

Para não descartar totalmente a Europa e passar a vê-la apenas como ponto alto das tragédias, decidi amenizar tudo com literatura. Dentre todos os acidentes europeus, os meus preferidos são os de trem. Acredito ter uma paixão secreta por descarrilamentos. Os atentados no metrô de Moscou e de Madri são exemplos que serviram de base para textos que encarrilaram no gosto dos leitores.

Mas há uma coisa, em Lisboa, que sempre me intrigou mais do que os meios de transporte: os fenômenos da natureza. Não me refiro aos portugueses, trovejados em avalanches de piadas tempestuosas; e sim às catástrofes naturais, em especial o terremoto de 1755. Faz quase trezentos anos desde essa desgraça, mas os abalos sísmicos continuam em alta por lá.

Com a facilidade da internet em aproximar pessoas distantes e criar intimidades com estranhos, conheci uma garota lisboeta — para mim, garota; para ela, rapariga. Ambos dividíamos o mesmo amor pelas Letras e esse foi o elo da nossa amizade virtual. Ela, então, se apresentou como a miúda benjamim de um gajo porreiro, e eu também era o filho caçula de um cara simpático. Foi mais uma coisa em comum.

Antes mesmo de transformá-la decididamente em algo real, precisei consolá-la: foi quando José Saramago morreu. Sua terra estava em tremor, num terramoto, como ela dizia, e precisou se apoiar em mim para não cair. Acabamos por confiar um no outro. Em menos de trinta tuitagens, já estávamos trocando senhas pelo privativo. A partir de então, ela tinha acesso a todas as minhas contas de sites de relacionamento.

O envolvimento era quente até que um novo terremoto começou. Eu era a favor do retorno do trema, e ela era contra a queda dos c e p impronunciáveis. Eu queria a volta dos acentos nas paroxítonas terminadas em ditongo, e ela continuava abolindo o circunflexo. Eu insistia no você, ela batia o pé no tu. Dentre tantas coisas em comum entre mim e ela, havia uma diferença que não nos deixava ser um casal feliz: a língua.

Após muitas discussões lexicográficas, decidimos bloquear um ao outro; era isso ou se comunicar em inglês. Por fim, me lembrei de que precisava trocar a senha das minhas redes sociais, mas já era tarde. Ela já havia excluído fotos, insultado amigos, adicionado spams, feito um terramoto no meu perfil. Ah, aquela rapariga!

sábado, 8 de setembro de 2012

Se Fernando Pessoa rima com Lisboa...



Por que é que João Paulo Hergesel não rima com Alumínio? A resposta pode variar entre estas duas: (a) porque eu não sou um escritor de verdade; (b) porque nasci no lugar errado.

Vangloriando-me um pouco e tomando como certa a segunda alternativa, fiquei me perguntando o que seria melhor: naturalizar-me em uma cidade que rime com meu nome (como Ilhéus, Morro do Chapéu, Montevidéu) ou mudar meu sobrenome para algo que rime com Alumínio (como Plínio, Abissínio, Patrocínio). No pior das hipóteses, Alumínio é que poderia mudar de nome, para Porta do Céu, por exemplo.

Então, um dos meus neurônios, raciocinando, quis resolver esse impasse, alegando que, embora eu more em Alumínio desde bebê, minha terra natal é Sorocaba. Essa solução, na verdade, não ajudou em muita coisa, pois Sorocaba tampouco rima com João Paulo Hergesel. Talvez eu devesse inventar um pseudônimo para começar a assinar meus trabalhos: Bicho-da-Goiaba! É a minha cara e rima com Sorocaba.

Mas a ideia do pseudônimo ainda não havia me deixado satisfeito; não estava feliz em ser um inseto poético. Tentei rimar meus nomes do meio, Lopes e Meira, mas não tive bom resultado. Foi quando passei a imaginar que a primeira alternativa é que pudesse estar correta. Mesmo participando de diversos concursos literários, publicando livro, escrevendo para jornais e blogs, estudando Letras e marcando presença em tudo quando é evento ligado à literatura, talvez eu não tenha nascido para a escrita.

Algumas doses dessa cruel e suposta realidade me fizeram viver uma frustração artística por um tempo. Mas logo dei a volta por cima e preferi pensar que, com Fernando Pessoa, tudo não passou de uma coincidência. Não é a rima do nome com a cidade natal que define o escritor. Exemplos disso são que Clarice Lispector não rima com Tchetchelnik, Vinicius de Moraes não rima com Rio de Janeiro e Monteiro Lobato não rima com Taubaté.

Já havia até me conformado, mas ainda não estava totalmente feliz: se Fernando Pessoa pode, por que eu não posso? Enquanto perdia tempo matutando sobre isso, uma amiga da faculdade, vendo meu desespero, resolveu logo o problema: o escritor João Paulo Hergesel só pode ter vindo do Beleléu! É um lugar misterioso, indeterminado, que não aparece em nenhum mapa, mas que certamente está repleto de imaginação e criatividade.

Desde então, me senti mais poeta.

sábado, 1 de setembro de 2012

Se a ilhota é minha, chamo de ilhinha!



A ilha de Onira é a menor do mundo, com somente um palmo de extensão. Mas a ilha de Onira é também a maior do mundo, pois abriga bilhões de habitantes e se limita com milhares de universos. É um lugar tão perto que pode levar para tão longe. Não tem mapa físico nem político; aparece apenas no mapa anatômico. É uma ilha particular, em que só entram aqueles que forem autorizados. Como sou canhoto, ela fica do meu lado esquerdo.

Essa ilha é uma porção de aveia rodeada por suco de jabuticaba com ameixa. Nela, como em toda ilha, tem coqueiros, pedras e areia. Mas os coqueiros dão palmito, as pedras flutuam e a areia tem gosto de groselha. Também tem nuvens no céu azul, mas, dessas, eu não sei o sabor nem o número da certidão de nascimento, pois, sempre que estou lá, ando por cima delas e sinto cócegas.

Na primeira vez que me lembro de ter ido para Onira, conheci uma barata roxa que era dona de um controle remoto. Ela tomava Coca-Cola, falava inglês e morava no norte, mas, como estava de férias, queria visitar o sul. Para isso, ela apertou um botão vermelho de seu controle e o planeta se inverteu. Segui o exemplo e passei a contrariar tudo o que um dia alegaram que era inalterável.

Depois que criei gosto pelo lugar, fiz amizade com portas, tubarões e edredons que pulavam amarelinha. Acredito que eu tenha ficado íntimo deles, pois, numa das vezes, uma vaca veio me contar que o delegado havia prendido a respiração, mas ela deu um jeito de fugir com ajuda de um sol que se chamava Iolanda.

Passei muito tempo lá até descobrir que, assim como todo território, essa ilha também tinha hino, bandeira e brasão: o hino era feito em mímica, a bandeira era dois e o brasão ficava na churrasqueira presidencial.

Certa vez, quando eu já estava me tornando adolescente, escutei um helicóptero falando para uma pétala de cravo que, em algum lugar daquela areia de groselha, havia um tesouro enterrado. Não tive dúvidas e comecei a cavoucar, com canudinho de milk-shake, até que atingi algo barulhento e curioso.

De repente, do buraco que havia se formado no chão, começaram a vazar palavras. Saíam como petróleo, porém com tamanhos, cores e formatos diferentes. Tinha palavra curta — pé — e tinha palavra longa — hipopotomonstrosesquipedaliofobia — e tinha palavra bonita — veludo — e tinha palavra assustadora — trovejante — e tinha palavra que nem era palavra — gunkh. Peguei um balde de almaço e comecei a juntar todas elas. Desde então, tenho feito meus relatos de todas viagens que faço por lá.

Hoje, passo mais tempo na ilha de Onira do que em qualquer outro lugar. Algumas pessoas se incomodam com isso, pois, sempre que precisam da minha atenção, estou ocupado demais cantando no karaokê com algum porco suíço. Vivem me dizendo que devo me esquecer de lá, não me apegar a essa loucura. Já cheguei a considerar a hipótese, mas não encontrei maneira de cumpri-la: lá, e apenas lá, posso me ousar e escrever crônicas sem um pingo de juízo.

sábado, 25 de agosto de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Vinte mil réguas submarinas



O importante é ser você.
Mesmo que seja estranho, seja você.
PITTY, Máscaras.

Decidi que queria ser um coala, depois de ter assistido a um documentário na televisão a respeito do assunto. Suportaria até injeções e remédios amargos para modificar o DNA, só para me tornar um ursinho acinzentado fofíssimo que dorme o dia todo e só acorda para comer.

Um dos meus companheiros — que fica comigo, todas as noites, em cima do muro, miando para o além — deu risada e disse que era mais fácil eu atravessar o oceano do que realizar esse meu desejo. Pensei pouco a respeito do assunto, mas o suficiente para aceitar o desafio e afirmar:

— Vou me fazer de gaquático e ser o primeiro felino a descobrir o que há do outro lado do mar.

Gatos morrem de medo de água, ainda mais se ela for salgada e cheia de ondas; mas a vontade de fazer o que parecia impossível arranhava dentro de mim. Vasculhei o depósito de lixo de uma loja de produtos para natação e peguei um equipamento de mergulho, tamanho pequeno, que encontrei jogado fora.

Enquanto as ondas vinham a caminho da praia, fui de encontro a elas, usando os pés de gato para abrir espaço. Senti a água fria e a areia molhada e deslizante ao fundo. Tomei a última gota de coragem que ainda tinha e, evitando tomar as gotas do mar, submergi no Atlântico.

Via os crustáceos fazendo buracos na areia e via ostras saindo das conchas. Quanto mais eu andava, mais afundo eu entrava e mais beleza marítima conhecia. “Espero que não tenha tubarão por esses lados”, pensei enquanto me aproximava de uma curiosa ilha submersa: além de estar debaixo da água, ainda tinha, como cerca, estruturas de madeira que se pareciam muito com réguas escolares.

Procurei a entrada e descobri que o portão, na verdade, era um buraco que ficava entre os números 50 e 75. Em outras palavras, eu precisaria escalar meio metro e passar por uma abertura de exatamente 25 centímetros. Usei as unhas resistentes para subir pela cerca e saltar para o outro lado. Quando caí no chão, dei de cara com uma estrela-do-mar.

— Meu nome é Janaína — ela disse.

Levei um susto tão assustador que berrei; mas o miado virou apenas uma bolha de ar, que vazou da máscara de mergulho e flutuou até a superfície. Mais calmo, olhei atenciosamente para a estrela e percebi que a conhecia de algum lugar. Ela, então, explicou:

— Sou uma estrela que caiu do céu para enfeitar o mar.

Certamente, ela havia sido uma das que conheci na viagem que fiz ao céu quando morri de susto. E, por ironia das circunstâncias, quase que morri de novo; só que, agora, aprendi a controlar o terror que sinto.

Fiquei surpreso ao encontrar alguém conhecido ali, no fundo do oceano, e quis começar a conversar. Antes, no entanto, que eu pudesse mandar um miau, uma sardinha apareceu detrás das algas marinhas e quase se esbarrou em mim. Quando percebeu que tipo de animal eu era, saiu gritando para que até Netuno ouvisse. As outras sardinhas saíram de seus corais desesperadamente e provocaram a maior confusão para ver quem conseguia se esconder do devorado de peixes.

— Calma, gente! — disse Janaína. — Ele é apenas um gato caolho do rabo comprido e não faz mal a ninguém...

A galera estava se tranquilizando, até que ela decidiu terminar a apresentação:

— ... a não ser às sardinhas que caça para se alimentar.

Voltou a anarquia: peixe subindo em cima de peixe, barbatana batendo em nadadeira, espinha furando escama. Na tentativa de acalmá-los, tirei o sugador de oxigênio da boca e confessei:

— Não se preocupem! Só como sardinha-de-água-doce. Vocês, salgadas, podem me causar pressão alta.

As sardinhas ainda estavam receosas com minha presença, mas puderam perceber, pela honestidade refletida no meu único olho, que eu estava em missão de paz.

— Ufa! Já estava pensando que era mais uma armadilha da Pólvora — uma delas disse.

Perguntei quem era essa, e elas me contaram que Pólvora era a criatura mais terrível do recife das Vinte Mil Réguas Submarinas. Com os oito tentáculos de polvo, ela era capaz de esmagar qualquer um que considerasse inimigo. Todo mundo a temia.

— E se ela fica assustada — disse uma sardinha — joga uma tinta escura na água e deixa quem estiver por perto totalmente cegueta.

— Um dia — disse Janaína — ela estava tão irritada que comeu uma das minhas pontas. Minha sorte é que estrela-do-mar é capaz de se regenerar, e ganhei um braço novo rapidinho.

De repente, toda a reunião de boas-vindas foi interrompida por mais gritos e correria. Pedi para que não fizessem tanta euforia, pois eu era um gato bonzinho; mas não sobrou uma criatura viva próximo dali; até as algas se encolheram atrás das pedras.

Estava chegando à conclusão de que seres marítimos eram medrosos demais, mas, antes de eu confirmar minha hipótese e continuar a caminhada, senti uma gosma gelada, como se fosse um desentupidor de pia, sobre minhas costas. Quando virei o pescoço, havia uma gigantesca espécie arroxeada de polvo fêmea. Ela enrolou um dos tentáculos em mim e murmurou:

— Nunca tive gatos escravos. Espero que você faça um trabalho melhor do que o daquela sereia inútil que aprisiono no calabouço do meu castelo.

Fui levado para o palácio de Pólvora e largado na mesma cela em que estava a sereia de que ela havia falado. A garota-peixe me viu com olhar piedoso e foi conversar comigo, para saber se eu estava bem. Ela se apresentou a mim como Mariana.

Em três minutos de conversa, descobri que Mariana nunca conheceu os pais. Quando o pai dela soube que a mãe dela estava grávida, entrou em seu disco voador e voltou para o planeta de origem. E a mãe, depois do nascimento da pequena sereia, decidiu explorar o litoral do Cabo da Boa Esperança.

(Na verdade, Mariana não sabia bem o que havia acontecido para que os pais se desligassem da vida dela sem deixar recado após o sinal, por isso preferia acreditar que tinha um pai extraterrestre e uma mãe historiadora.)

Nossa conversa foi interrompida, antes de eu dizer quem era. Pólvora me arrancou da prisão para que eu segurasse a antena da televisão do quarto dela — parecia inacreditável, mas a tecnologia submarina era semelhante à que tínhamos em terra.

Enquanto eu colocava um pedaço de palha de aço na ponta, ouvi o jornalista anunciar: “O filho da rainha lula vai se casar!” E acrescentou que o pretendente seria escolhido de uma maneira inusitada: eles visitariam as casas e entrevistariam as interessadas, até que o filho da lula encontrasse um peito em que seu coração se encaixasse.

Pólvora viu, aí, uma ótima oportunidade de se casar, mas sabia que, com a sereia vivendo sob o mesmo teto, seria difícil o filho da rainha prestar atenção no charme roxo dela. Mariana conseguia ser mais bonita, mais simpática, mais carismática e mais apaixonante do que Pólvora sonhava em ser. Então, a vilã decidiu pensar em uma forma de fazer com que Mariana não fosse notada.

Primeiro, pensou em escondê-la no guarda-roupa; mas o lugar era muito apertado, e ela conseguiria abrir a porta, já que não havia trancas. Depois, pensou em prendê-la dentro de uma caixa de contorcionismo; mas sequer havia uma caixa dessas na casa! Então, Pólvora encontrou a ideia de que precisava: transformaria Mariana em um tritão.

— Claro! Se Mariana for um menino, o filho da lula não poderá se casar com ela.

Assim, começou a pensar em voz alta e citou milhares de possibilidades de como poderia fazer isso. Pensou em cirurgia plástica, em maquiagem artística e até em comprar um forno capaz de modificar a aparência das pessoas. Mas tudo era muito caro e complicado, ainda mais para quem estava no fundo do mar. Resolveu que a transformação deveria ser feita passo a passo.

Num momento em que Mariana estava distraída, Pólvora deu início ao plano, despejando um pote inteiro de creme para nascer barba no rosto dela — era um creme potente, feito com couro de peixe-boi, que deixaria as bochechas dela com pelos e faria um bigodão esculachado crescer debaixo do nariz. Mariana tentou se lavar, mas o creme já havia surtido efeito.

Depois, Pólvora preparou um refrigerante especial: misturou um pouco de pó de pérola com água e inseriu um pouco de gás. Mas não era um gás qualquer de refrigerante; era gás hexafluoreto, que faz a voz engrossar. Deu para que Mariana tomasse um gole, e ela virou logo o copo — quando foi falar, a voz saiu como de cantor de ópera.

Na mesma tarde, Pólvora trocou todas as roupas do guarda-roupa de Mariana: tirou os vestidos, os laços e até os sutiãs. No lugar, colocou roupas de tritão. Como se não bastasse, deu um jeito de sujar as roupas que Mariana estava usando, para que, quando a sereia fosse se trocar, tivesse a obrigação de escolher um dos ternos e cartola.

Então, chegou a vez do quarto e último passo, o mais difícil. Pólvora precisaria de um feitiço para permitir que Mariana fizesse xixi de pé. Bastava isso, e se tornaria um tritão perfeito. A vilã retirou um livro velho e medonho de um fundo falso da gaveta de talheres. Era um livro de poções e encantamentos. Na página sobre transformações, ela leu:

“Para que o corpo físico seja transformado, é necessário juntar, numa mesma poção: três gotas de lágrima de golfinho, nove patas de siri torradas e um bigode de gato.”

Os golfinhos, ela arrumaria na costa leste; os siris viviam passando em frente do jardim do palácio; mas o gato... Enquanto ela imaginava onde arrumaria um gato insignificante para arrancar-lhe um bigode, solucei inocentemente e fui descoberto.

Com a poção preparada, Pólvora entrou sorrateiramente no banheiro, onde Mariana tentava dar um jeito de arrancar a barba do rosto. A madama polvo sussurrou para si:

— Preciso dar um jeito de jogar isso na cauda dela rápido, antes que as maldades iniciais percam o efeito.

Antes de conseguir se aproximar de Mariana, entretanto, um barulho de vidro se quebrando assustou Pólvora e fez com que ela derrubasse a poção na privada. Correndo até a sala, ela encontrou Janaína espatifada no chão, mas com uma capa de super-heroína e uma expressão corajosa na face:

— Esta é a hora da estrela... Janaína Star ao resgate! — disse. — Vim salvar meu amigo Miau.

Pólvora havia ficado irritadíssima e pareceu que iria esmagar Janaína com uma tentaculada só, de forma que a pobrezinha nem conseguiria se regenerar depois. Mas um mutirão de sardinhas entrando pela vidraça quebrada a distraiu.

— Resolvemos que não vamos mais ficar caladas — uma delas disse.

— É isso aí! Viemos libertar a Mariana.

A essa altura, Mariana já havia conseguido se barbear; havia encontrado a roupa dela, que estava escondida debaixo da cama; e o gás hexafluoreto já havia perdido o efeito. A sereia já estava normal novamente. Isso fez que com Pólvora desabasse em lágrimas de nanquim.

— Não é justo! Essa garota é tão linda, e eu... eu sou um monstro. Todos a amam, todos a querem como amiga. Mas eu sou a abominação dos mares, e a única chance que eu tinha de me livrar dessa peste e me casar com alguém... essa chance foi perdida.

Enquanto Pólvora desabafava, a campainha tocou. Mariana abriu a porta e recebeu a rainha lula e o filho. No mesmo momento, o rapaz lula exclamou:

— Que moça mais linda!

Mais nanquim foi liberado por Pólvora, o que fazia com que o ambiente ficasse ainda mais opaco, difícil de enxergar.

— Viu? Todos os olhares são voltados para Mariana — a madama polvo disse.

— Mas estou falando de você, roxinha — disse o filho da lula. — Para que vou querer uma sereia, que é metade peixe e metade humana, se posso entrelaçar meus tentáculos nos seus, hein?

Pólvora, que sempre teve inveja da sereia, foi apresentada à beleza própria. Explodiu de tanto contentamento, que jorrou altas doses de nanquim no mar. Ninguém conseguiu ver mais nada. Quando a escuridão passou, a madama polvo e o filho da lula já não estavam mais ali; provavelmente, haviam se mudado para um lugar onde vinte mil réguas não seriam capazes de mensurar o tamanho do amor que sentiam um pelo outro.

Depois disso, dei adeus a toda a peixarada, em especial à Janaína. E voltei para a praia, onde a primeira criatura que encontrei, coincidentemente, foi meu companheiro das serestas.

— Ué, você não disse que queria ser coala?!

— Decidi que quero ser apenas um gato caolho do rabo comprido. Se eu não for isso sempre, não quero ser mais ninguém.

sábado, 18 de agosto de 2012

UM GATO CAOLHO DO RABO COMPRIDO: Senhor desensorrisado



Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...
TOM JOBIM, Wave.

A água do rio estava bem cristalina, e eu conseguia enxergar as sardinhas nadando para lá e para cá. Posicionei minha pata direita perto da superfície; assim que um peixinho bobeasse e emergisse para pegar as sementes que caíam da árvore e boiavam tranquilas, eu daria o golpe fatal. No entanto, quando estava chegando o momento exato, fui transportado misteriosamente para uma sala enorme com móveis imensos.

A porta estava entreaberta e percebi quando um pouco de névoa entrou no cômodo; alguns segundos depois, passou um avião. Eu estava em um reino acima das nuvens, num lugar que nem sabia que poderia existir. Enquanto me sentia totalmente fora da realidade, um homem gigantesco e carrancudo reclamava aos berros com uma varinha de condão:

— Eu peço um gato, e você me traz essa porcaria que nem tem olho? E se isso me arranhar?

— Não vou arranhar você — eu disse. — Sou apenas um gato caolho do rabo comprido e não faço mal a ninguém, a não ser às sardinhas que caço para me alimentar.

Sabia que eu poderia ser entendido por tudo quanto é tipo de coisa: brinquedos, veículos, corpos celestes e até crianças. Só adulto mesmo é que não me entendia. Mas um gigante... Eu nunca havia visto um gigante de perto, muito menos tentado me comunicar com um; por isso, não tinha certeza de que ele me entenderia. Mas entendeu. Olhou seriamente para mim e falou:

— Eu estou infeliz. E minha infelicidade é proporcional ao meu tamanho. Daí, pedi um gato. Quero que você me faça feliz.

Com meu reles conhecimento de gato, nunca soube que gigante tinha varinha de condão, nem que ela funcionava com palavras mágicas. Mas o gigante me convenceu que, se a Fada Madrinha tinha o bibidi-bobidi-bum, ele poderia ter o fá-fé-fi-fó-fu. Ainda assim, não entendi por que ele havia me chamado, pois eu não sabia em que poderia ajudar. Então, ele me mandou sentar numa caixinha de palito de dentes, que também era proporcional ao tamanho dele, e me explicou:

“Não tem coisa mais chata do que ficar no castelo, sem nada interessante para fazer. Sempre tem um momento em que o videogame perde a graça, que a televisão cai na mesmice e que o computador se torna cansativo. Aí, eu me sento no sofá e me emburro.

“De vez em quando, uma criada ou outra aparece para varrer o tapete ou espanar a poeira dos móveis. Dá uma raiva tremenda quando elas param o que estão fazendo para olhar minha cara e perguntar o que está acontecendo.

“— Gigante Everest, por que está mal-humorado? — dizem.

“— Mal-humorada é a vovozinha! — digo.

“Realmente a Vovó Himalaia tem um humor péssimo, que nem o Vovô Corcovado aguenta. Mesmo assim, era fato que nada mais me fazia sorrir, tanto que acabei sendo apelidado aqui, no reino, de senhor desensorrisado.

“Saber que as pessoas me chamavam daquele jeito só fazia com que meu mau humor aumentasse. Tomei, portanto, uma decisão: iria rir, mesmo que não encontrasse motivo para isso.

“— Ou rirei como uma peste, ou não me chamo Gigante Everest!

“A fala deu até rima! Fui para diante do espelho e fiquei olhando para mim e tentando encontrar algo engraçado. Fiz careta: subi a sobrancelha, entortei os olhos e pus a língua pra fora. Não funcionou. Fiz outra careta, mas o espelho caiu na gargalhada — eu me irritei e o joguei no chão.

“Nem me importei com os famosos sete anos de azar; eu já estava tão mal-humorado que um pouco de má sorte não seria nada absurdo.”

Pessoas felizes podem até falar bastante, mas gente amargurada consegue tecer discursos enormes. Ou talvez isso fosse próprio do gigante, que tinha tudo grande, até a fala! O fato é que minhas orelhas de gato estavam cansadas de tanto blá-blá-blá e resolvi meter o focinho e interromper o pensamento.

— E por que você não pediu para a varinha mágica lhe dar um pouco de felicidade?

— A varinha me traz coisas materiais, mas não pode modificar os sentimentos. Por isso preciso que você me faça ficar rico! Se eu tiver ouro, serei mais feliz.

— Ainda não entendo. Como um gato de rua, pobre e morto de fome como eu, pode fazer com que você enriqueça?

Ele me olhou grosseiro e foi até o armário onde guardava os instrumentos musicais. Pegou uma harpa cor de prata, como se estivesse forrada por papel-alumínio, e me contou:

— Esta harpa prateada é mágica. Assim que ela tocar uma música, o animal que a ouvir passa a botar ovos de ouro.

— Mas não sou galinha e não boto ovo.

— A partir de agora, botará.

A harpa desenvolveu um rosto e braços. Bocejou, espreguiçou-se, abriu os olhos, esticou os braços para trás e começou a tocar. Era uma canção medieval, tipo dessas que aparecem em filmes de reis e rainhas. Mal tive tempo de prestar atenção na música e senti um enjoo, como se algo pesasse no meu estômago. A ânsia foi aumentando, e eu não consegui segurar: fiz força de vômito e golfei um ovo de diamante.

— Ué, isso é diamante! — eu disse. — Você não falou que os ovos seriam de ouro?

— Ah, é que estou acostumado com gansos! É a primeira vez que faço experiência com um gato. Da vez que fiz com coelho, saiu um ovo de chocolate.

Finalmente, alguém me explicou como é que surgem os ovos de Páscoa.

Enquanto eu me recuperava do fato de ter botado um ovo, Everest juntava o pedaço de diamante, que para ele não passava de uma bolinha de gude, e guardava no bolso. 

— Estranho! Não funcionou. Fiquei um pouco mais rico e, mesmo assim, continuo infeliz.

O gigante se chateou ainda mais e foi olhar através da janela do castelo. Resolvi que não podia ficar parado: escalei o corpo dele e me sentei em seu ombro esquerdo, como se fosse um papagaio no ombro de um pirata. Quis saber o que ele estava vendo, e ele me apontou para baixo.

— Veja lá na terra: todo mundo está correndo e se divertindo; só há alegria! E aqui em cima é tudo tão triste.

De lá das nuvens, as pessoas pareciam formiguinhas: os adultos eram saúvas, e as crianças eram operárias, difíceis de enxergar. Se bem que as formigas operárias trabalham, carregando as folhas para o formigueiro, e as crianças apenas brincam, carregando a bola até o campo de futebol.

Everest comentou que queria fazer uma visita a terra e descobrir qual era a origem da felicidade, para colher um pouco para si. Mas suspirou descrente, pois não sabia como fazer para chegar até lá. Então, dei uma sugestão:

— Por que você não usa sua varinha e pede para nascer um pé de feijão, daqui do céu até a terra? Aí, é só descer por ele.

— Pé de feijão? Mas pé de feijão cresce para cima! Se vai ser para baixo, é melhor pé de mandioca, não?

A análise dele fez sentido. Concordei com um ronronar, e ele balançou a varinha, dizendo as palavras mágicas:

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fu! Quero que cresça um pé de mandioca, que vai desta nuvem até o chão.

No fim das palavras, a nuvem vibrou e pudemos perceber que uma saliência brotou na parte de baixo. Rapidamente, como um vegetal que foi regado com adubo a jato, as raízes se desenvolveram, com casca marrom e grossa, cheia de saliências, e se esticou até o pasto de uma fazenda.

Continuei no ombro de Everest, enquanto ele descia aquele tronco, como se fosse uma parede de escalada. Por ser gigante, não demorou muito a colocar os pés na grama e quase aterrissar em cima de uma vaca. A primeira atitude de Everest foi arrancar um pouco do mato e colocar na boca. Na primeira mastigada, cuspiu tudo.

— Essa nuvem de vocês tem um gosto horrível! Prefiro a do meu reino, que é feita de algodão-doce.

Enquanto eu explicava que ninguém comia capim — exceto as vacas e outros animais herbívoros, que pareciam se deliciar —, um garoto, que vinha correndo, tropeçou no mindinho do gigante. O grande homem pegou o menino na palma da mão e o levantou para perto do rosto. O menino não mostrava estar assustado, mas dava risada e arregalava os olhos por ver uma criatura fantástica tão de perto.

— Uau! Você é mais alto que o papai.

— E você parece um feijão. Vou chamá-lo de Feijão.

O gigante levantou o garoto pela camiseta e percebeu que os pés de Feijão estavam sujos e descalços. Viu que as calças também já estavam rasgadas e a camiseta não era de tecido muito bom.

— Por que você usa roupas tão velhas? E onde estão seus sapatos?

— Meus pais são pobres. Mal temos com que nos alimentar. A gente vive nessa fazenda, mas é como empregado. E o patrão não deixa nem a gente beber o leite das vacas.

Everest fez cara de confuso; disse que não entendia como um moleque paupérrimo como Feijão podia ser feliz, sendo que, mesmo com todo dinheiro do mundo e uma varinha mágica, ele não conseguia mostrar um sorriso sequer.

— Eu amo o papai e a mamãe. E também amo o campo e amo a vaca. Gosto de tudo que vive comigo, e isso basta para eu achar a vida boa. E você, não ama esse seu gato?

O gigante franziu a testa e voltou o menino ao chão. Então me pegou pelo rabo e me arrancou do ombro dele. Emburrou mais uma vez e começou a revirar os bolsos. Tirou o ovo de diamante que havia guardado e entregou a Feijão.

— Que ovo esquisito! Será que vai nascer um pintinho de vidro?

O garoto saiu correndo com o ovo nas mãos, chamando pela mãe e dizendo que iam ter que forrar o galinheiro com almofadas, para que, se algum pintinho de vidro caísse do poleiro, não quebrasse. Everest via o menino correndo pelo campo e achou engraçado o fato de ser tão inocente.

— Fá, Fé, Fi, Fó, Fu! Quero amar o campo e amar a vaca. O reino acima das nuvens ficará bem sem a minha presença.

Dito isso, a varinha de condão desapareceu, e o gigante foi ficando marrom, da cor da mandioca, e se estendendo para os lados. Em poucos segundos, ele havia se tornado uma montanha. Como não sabia o que fazer, acabei indo embora; mas, algum tempo depois, ouvi comentários sobre uma montanha que levava até o céu. Fiquei sabendo que ninguém havia conseguido escalá-la até o topo, mas alguns alpinistas juravam que a ouviam rir.