Uma vida sempre real se torna chata. Por isso, existem os textos literários. Eles têm a missão de divertir a realidade!
sábado, 27 de outubro de 2012
sábado, 20 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
o poste e o crack
o poste, com sua fraquejante
bunda de vaga-lume,
ilumina o que ocorre bem
abaixo dele e observa:
chegam
sentam
sorriem
trocam
pedras
acendem
fumam
soltam
fumaça
sorriem
pegam
outras
pedras
acendem
(trago)
(trago)
(trago)
zonzos
riem
zonzos
caem
zonzos
ficam
passa
noite
passam
horas
chega
ajuda
médica
tarde
tarde
nenhuma surpresa.
sábado, 6 de outubro de 2012
sábado, 29 de setembro de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
Vida de Pedra
Desde que me conheço como pedra, percebo que não exerço bem essa função. Evito ao máximo atrapalhar, incomodar ou dificultar as coisas. As pessoas é que se atrapalham, se incomodam, dificultam tudo comigo.
Minha primeira experiência marcante foi quando eu ainda morava em uma caverna. Ali também vivia um homem barbudo, já de meia idade. Ele havia conquistado sua primeira amada, com a qual provavelmente se casaria e procriaria. Estava tão feliz que fez uma pintura rupestre sobre a família que sonhava em ter. Fui usada para registrar uma das maiores alegrias da vida de um homem.
Mais tarde, um grupo de trogloditas começou a me quebrar até me deixarem com um tamanho fácil para carregar. Do lado de fora, vendo pela primeira vez a luz do sol, senti lapidarem de um lado e de outro. De repente, me jogaram ladeira abaixo e rolei como se rola uma boa roda. Estive presente na maior invenção da época.
Depois de terem me utilizado por bastante tempo, não aguentei tanto impacto e me parti ao meio, o que me fez ficar isolada e sem utilidade naquele momento. Porém, com a chegada do período glacial, servi de abrigo para diversos insetos da era do gelo.
Séculos depois, tive as partes separadas. A distância entre mim e eu mesma foi um sofrimento necessário. Um lado foi trabalhado e utilizado como banco para a plateia do teatro grego se sentar; o outro participou da formação de um lindo palácio. Infelizmente, este foi explodido e o meu pedaço se desmanchou no ar.
Eu, o lado sobrevivente, continuei sendo útil por gerações. Participei inclusive da escravatura, aprisionando escravos. Confesso que não me orgulho desse meu feito.
Muitos anos depois, olharam para mim e enxergaram arte. Levaram-me para que eu fosse esculpida. Poliram daqui; poliram de lá. Ao terminarem, descobri que a arte vista em mim era a poesia. Protagonizaria diversos poemas a respeito da morte.
Meu destino foi virar lápide — pela minha eternidade de pedra, uma eternidade que pode ter um fim inesperado.
Durante o dia, as pessoas choram sobre mim. Após o pôr do sol, eu é que entro em prantos sem entender por que eu, que sempre fui a favor da felicidade, me tornei responsável por tanta tristeza. Certamente, não tenho um coração que condiz com a minha imagem.
sábado, 15 de setembro de 2012
Garota Terremoto
Um sonho que eu tinha na minha pré-adolescência pós-moderna era conhecer a Europa. Meu paladar até sentia os sabores do chocolate suíço, do salsichão alemão e da pizza italiana, só de imaginá-los. Depois que fui crescendo, as suíças, as alemãs e as italianas é que deram um novo gosto à minha juventude. Mas, vendo o tanto de desastres que acontecem do lado de lá do Atlântico, entrei numa desilusão barroca.
Para não descartar totalmente a Europa e passar a vê-la apenas como ponto alto das tragédias, decidi amenizar tudo com literatura. Dentre todos os acidentes europeus, os meus preferidos são os de trem. Acredito ter uma paixão secreta por descarrilamentos. Os atentados no metrô de Moscou e de Madri são exemplos que serviram de base para textos que encarrilaram no gosto dos leitores.
Mas há uma coisa, em Lisboa, que sempre me intrigou mais do que os meios de transporte: os fenômenos da natureza. Não me refiro aos portugueses, trovejados em avalanches de piadas tempestuosas; e sim às catástrofes naturais, em especial o terremoto de 1755. Faz quase trezentos anos desde essa desgraça, mas os abalos sísmicos continuam em alta por lá.
Com a facilidade da internet em aproximar pessoas distantes e criar intimidades com estranhos, conheci uma garota lisboeta — para mim, garota; para ela, rapariga. Ambos dividíamos o mesmo amor pelas Letras e esse foi o elo da nossa amizade virtual. Ela, então, se apresentou como a miúda benjamim de um gajo porreiro, e eu também era o filho caçula de um cara simpático. Foi mais uma coisa em comum.
Antes mesmo de transformá-la decididamente em algo real, precisei consolá-la: foi quando José Saramago morreu. Sua terra estava em tremor, num terramoto, como ela dizia, e precisou se apoiar em mim para não cair. Acabamos por confiar um no outro. Em menos de trinta tuitagens, já estávamos trocando senhas pelo privativo. A partir de então, ela tinha acesso a todas as minhas contas de sites de relacionamento.
O envolvimento era quente até que um novo terremoto começou. Eu era a favor do retorno do trema, e ela era contra a queda dos c e p impronunciáveis. Eu queria a volta dos acentos nas paroxítonas terminadas em ditongo, e ela continuava abolindo o circunflexo. Eu insistia no você, ela batia o pé no tu. Dentre tantas coisas em comum entre mim e ela, havia uma diferença que não nos deixava ser um casal feliz: a língua.
Após muitas discussões lexicográficas, decidimos bloquear um ao outro; era isso ou se comunicar em inglês. Por fim, me lembrei de que precisava trocar a senha das minhas redes sociais, mas já era tarde. Ela já havia excluído fotos, insultado amigos, adicionado spams, feito um terramoto no meu perfil. Ah, aquela rapariga!
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