sábado, 1 de junho de 2013

madrugada de novembro



a vassoura 
varreu com tudo
as estrelas
para dentro do
chapéu pontiagudo

adeus, outubro!

o crucifixo
cruza que inda lembro
e os espíritos santos
colhem as dores
e guardam segredo

olá, novembro!

a pétala vermelha
desabrocha cheirosa
um veludo púrpura
na pele mimosa

na madrugada chuvosa
o coração poético
se refaz em prosa
e a poesia entrosa
um chá
de rosas

sinto em mim
um novo membro
novembro

curto o momento
enfrento a saudade
e apenas relembro

sábado, 25 de maio de 2013

pudim de leite



o pudim saiu do forno
foi desenformado
ainda morno
e finalizado com calda
de açúcar caramelado

branco e tinha coco
era consistente
não estava oco
nem perfeito porque
faltava um ingrediente

tirei um bocado
não o senti decifrado
um conto complexo
pontuação de Saramago

cheiro quente
gosto de branco
brincava com as papilas
mas um doce incompleto

insisti na insistência
colher pós colher
e assim foi engolido
do princípio à cauda

o último pedaço
tocou a campainha
da garganta
e abri a porta
do refrigerador

achei a ameixa seca
e de que adianta
se o pudim já acabou?

sábado, 18 de maio de 2013

coração de framboesa



meu coração é
feito de framboesa
feito sobremesa
perfeito para provocar
o efeito de prazer

minha emoção
está conforme a framboesa
está conforme a estação
de rádio
de trem
do ano
que vem

meu coração é oração
pai nosso, ave-maria
creio-em-deus-pai por nove dias
dessas que a gramática não explica
sem padrões sintáticos
mas que faz acontecer
por eu acreditar que acontece

meu coração é ração
pulsa me alimentando
e me mantendo vivo

meu coração é ação
mal pensa em mim
verbo defectivo

meu coração é ção
mas insiste hipocondriacamente
em se fazer de doente

meu coração é ão
no aumentativo
pois se compadece por tanta coisa
que parece não ser limitado
um polígono com milhares de lados
por isso sofre em múltiplos

meu coração é o
definido masculino
só sendo macho para suportar
tanta dor
tanto amor
e tanta rima clichê

meu coração é coração
em seus menores detalhes

sábado, 11 de maio de 2013

encapetado



pega o demônio pelo rabo
e sacode
dá-lhe um chute, pisa-lhe a cara, aperta-lhe o pescoço
arranca-lhe os chifres e depois sorri
senta e o convida para um chá

conversa com ele em voz alta
em língua de capeta
infernarium fogarentus
espera que ele revele
os teus segredos
entre as mordidas duma bolacha maria

recebe na cara o vômito da verdade de ti
descobre que não passas de um pelo púbere
que tua vida não será intacta para sempre
e deixa que a frustração escorra-te na alma
como o esperma escorre nos dedos de um adolescente

pega o demônio pelo rabo
e sacode
arranha-lhe o rosto, quebra-lhe as pernas, cospe-lhe no olho
espreme-lhe os testículos e enfia-lhe três dedos no cu
depois espera que ele sorria e te convide para um chá

sábado, 4 de maio de 2013

Em centímetros e polegadas



De que adianta terem inventado o famoso ditado que diz que “tamanho não é documento” e, posteriormente, a analogia de que “se tamanho fosse documento, o elefante seria dono do circo”, se menino não acredita em nada disso? A maioria nem toca no assunto, mas mantém em sigilo a preocupação de, se um dia, conseguirá urinar no vaso estando em pé na porta do banheiro.

A puberdade mal toca a campainha, e o garoto já fica todo no estica-e-puxa para saber se o pinto vai crescer logo. Na primeira ereção em que ele está sozinho em casa, corre pegar uma fita métrica para saber qual seria o número da camisinha, se ela fosse vendida como os calçados. Põe a fita em cima, embaixo, do lado, “rouba” alguns milímetros e, mesmo assim, não se contenta com o resultado que não lhe parece um número muito alto.

Como ainda não tem muita noção de qual é a média do tamanho, usa a internet para descobrir: imagina-se como o africano, ri do japonês e, depois, fica constrangido ao saber que os homens do Brasil não ficam muito além dos do Japão. Pelo menos, depois disso, ele já tem um valor fixo, uma meta que precisa atingir o mais breve possível, pois senão a adolescência acaba e ele não se contentará com o resultado final.

Sempre que pode, ele olha para o lugar e tenta medir com o olho, para saber se cresceu. Tem a impressão de que seu pequeno Pokémon está sofrendo um processo de evolução e torna a pegar a régua, mas o tamanho é o mesmo. Converte em jardas e polegadas, mas os números obtidos ainda parecem insuficientes para fazer a alegria da garota que ele quer pegar.

Chega uma hora, então, que a mente mergulha tão profundamente no mar da curiosidade que ele resolve comparar. Sabe que o vestiário não é o lugar mais aconselhável, já que, nos chuveiros, está todo mundo com o pinto mole e assim não dá para ter ideia de nada; por isso, usa novamente a internet. Vê fotos de revistas e visita sites que promete nunca mais entrar — exceto quando outras dúvidas surgirem.

O cara do filme pornô que parece uma tora e o galã da capa do mês de agosto que poderia ser louvado por aborígenes adoradores da Grande Mandioca, entretanto, não são boas referências: primeiro porque são modelos contratados com foco unicamente nisso; segundo que um editor de imagens pode ter aumentado as coisas. O garoto precisa ver fotos de gente normal e roda o site de busca até se encontrar com um site em que os usuários colocam as fotos para que o visitante avalie.

Sem pensar muito — não há cabeça para isso no momento —, ele se passa por maior de idade, fingindo ter cinco anos a mais do que realmente tem, e cria uma conta. Levanta-se da cadeira, abaixa o short e direciona a webcam num ângulo que favoreça os países baixos. Registra a imagem e publica a foto com o pseudônimo gatinho_teen13. Fica meio receoso, com medo de ser descoberto, mas atualiza a página de dez em dez minutos.

As notas começam a ser dadas e surge o primeiro comentário: “Delícia, hein?! Chuparia todinho!” Não sabe de quem foi nem de onde veio, mas isso é o que menos importa. As palavras, mesmo xucras, fazem o garoto se sentir com uma arma superpoderosa entre as pernas. Antes de excluir a foto e negar até a morte o que havia feito, pega a régua novamente e, misteriosamente... parece que, enfim, aumentou meio centímetro.

sábado, 27 de abril de 2013

Nojo de menina



Menino tem nojo de menina, tal como o Super-Homem tem medo de kryptonita. O guri das cavernas, por exemplo, morria de raiva quando a melequenta cavernosa vinha com uga-ugas para cima dele, querendo brincar de pique-mamute (uma versão pré-histórica do esconde-esconde na qual a parede é um elefante peludo). Isso não seria problema se ela respeitasse o jogo e não espiasse, entre os pelos do animal, o esconderijo do menino. Depois, ainda por cima, se ele ficava cheio de grrrrrs, era ela que o enchia de mordidas.

Se menino e menina nascessem para se dar bem, Deus teria criado Adinho e Evita; como fez um casal de adultos, deixou a entender que ele já sabia que, abaixo dos 10 anos, seria guerra na certa: ela, jogando maçãs na cabeça dele, e ele pregando o maior susto ao colocar a serpente perto dela; ela cantando com as formigas e cigarras: “Aqui no Éden, os machos fedem...”, e ele retrucando com os javalis e suricatos: “Quer ser toda princesinha, mas saiu de uma costela minha...”

Os tempos modernizaram, mas a situação continua a mesma. Menino tem nojo de tudo que seja da menina: ele se irrita com a caneta que escreve em cor-de-rosa brilhante e tem uma pluma pendurada; fica com vontade de vomitar com o perfume fedorento que ela usa; quer rasgar em pedacinhos a revistinha com o teste de “descubra se ele ama você”... 

Só que então chega o dia em que o guri das cavernas sente carinho na mordida da melequenta cavernosa, em que Adinho convida Evita para o primeiro dueto do Paraíso. É o dia em que a menina põe a caneta na covinha dele e faz cosquinha, que o aroma dela se torna gostoso para o nariz do menino e que ele bem que gostaria de ter um teste que respondesse se ela o ama.

A paixão sai de algum lugar do corpo que o menino nem sabia que existia e pousa do lado esquerdo do coração — de tão rara, é canhota! Ele diz que não, bate o pé, afirma que menina não tem nada que preste e prefere a companhia dos amigos machos. Mas quando chega em casa, joga a mochila em qualquer canto do quarto e deita na cama com o fone nos ouvidos, prestando atenção na letra de uma música pop-romântica que nunca esteve acostumado a ouvir.

No grito da mãe para ir almoçar, o “calma aí!” sai com a certeza de que não terá pressa para se levantar dali. Gosta de pensar na menina nojenta, chata, irritante, insuportável, mas que faz ele se sentir bem. Decide, então, que vai ser nojento, chato, irritante e insuportável na mesma proporção, para saber se consegue prolongar o sentimento que ele não sabe o que é.

Após dias e mais dias de muita nojeira, chatice, irritação e atitudes insuportáveis — por parte dele, propositais, e por parte dela, apenas para ele —, ela se cansa e dá um tapa na cara dele. Ele fica imóvel por alguns segundos e revida dando um chacoalhão nela. Ela grita. Ele berra. Ela pisa no pé dele e tenta sair. Ele a agarra pela cintura e impede. Os dois se olham com raiva. Os lábios se encontram.

O selinho acontece do nada, na situação mais inusitada possível. Ele sente um pouco do que pensa ser nojo, mas é só o lado esquerdo do coração falando mais alto. Ambos se afastam e fingem que nada aconteceu. Do outro lado do muro, um amigo que brincava de pique-mamute moderno vê a cena e espalha para a escola inteira. Quando vão perguntar, ela nega. As amigas acreditam nela, afinal, menina tem nojo de menino.

sábado, 20 de abril de 2013

Belinho



Pentelho é uma palavra escrota, e o adjetivo poderia ser, muito bem, um advérbio, já que indica o lugar exato em que eles crescem. Há pessoas educadas que preferem chamá-lo de pelo pubiano, outras mais escrachadas optam por cabelo do saco; aqui, para zelar pela estética do texto, ele será conhecido apenas por Belinho. E quem estiver lendo que julgue a qualidade literária desse batismo!

Por volta dos 10 anos, o menino já sabe que vai passar por essa mudança e que essa será a primeira de muitas, então começa a obsessão à busca do tão sonhado Belinho. Todo dia, durante o banho, ele examina muito bem o local: olha por cima, olha por baixo, levanta, joga para o lado... e não encontra nada. Algumas vezes, ele chega a pegar um urso de pelúcia antigo ou o cabelo da boneca da irmã e põe no púbis para simular como ficará.

No fundo, o garoto se consola com o pensamento de que “daqui a pouco nasce”. Conforme os dias vão passando e o daqui a pouco demora a chegar, a vontade de ficar peludo aumenta gradativamente. De tempo em tempo, ele dá um jeito de correr até o banheiro e olhar para baixo, para saber se o Belinho já chegou. Quando, ocasionalmente, empina pipa com os amigos, inventa uma desculpa para fazer a verificação.

— Vou ali dar um mijão no muro, já venho!

E mesmo com a bexiga tendo sido esvaziada meia hora atrás, ele fica de frente para a parede de tijolos, espia para confirmar que ninguém está espiando, e puxa o short para frente, junto com a cueca, na esperança de que já haja algum sinal de que a puberdade deu boas-vindas. Mas não acha nada, volta o short no lugar e retorna para desembaraçar a rabiola como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, outro amigo já se afastou com a mesma desculpa mictória.

Chega, então, um dia em que ele acaba se esquecendo dessa fissura e vai dormir. Quando acorda e vai para o banheiro no primeiro minuto da manhã, tem a surpresa: o Belinho está lá! Depois de longos meses de espera, os hormônios decidiram dar um presente, que ele faz questão de contar ao melhor amigo assim que o vê na escola.

— Já nasceu.

— Quem nasceu?

— O Belinho.

E o amigo fala instintivamente: “Viado, você teve primeiro do que eu!” ou: “Bem-vindo ao grupo, só que o meu já tá enrolando.” Após o bate-papo, o menino, que era criança, está oficialmente adolescente e pode passar os dedos nos fios corporais e fazer cafuné nas partes baixas até cair no sono.

O Belinho cresce, engrossa, fica em maior volume e começa a subir pelo umbigo. Passa um mês, passam dois, passam três — em alguns casos, passa até um pouco mais de tempo — e a novidade acaba. O menino espera até que todos saiam de casa, corre ao banheiro, pega a gilete que a mãe usa para raspar a perna e faz todo o circuito que vai do umbigo às coxas. Manda ralo abaixo qualquer vestígio que lembre o Belinho e volta a ter aparência de dois anos atrás.