1º lugar no concurso de crônicas da AMLAC – Vinhedo/SP
Meu mal de nascença é a preferência por coisas incomuns; sempre fui o patinho feio que rodeia o lago dos cisnes. Nas aulas de educação física, todos brigavam pela bola de futsal, mas eu só queria saber do tabuleiro de ludo. Nos fins de semana, todos idolatravam o sol, mas eu adorava os sábados e domingos chuvosos. Nas baladas, todos carregavam o frasco de vodca, mas eu só segurava o copo com suco de abacaxi.
Na faculdade, não foi diferente. Cada um tinha sua própria paixão por uma das áreas do curso de Letras: uns eram rígidos na gramática; alguns, meticulosos na linguística; outros, fantasiosos na literatura. A amplitude da Língua Portuguesa, no entanto, me permitiu ser diferente (de novo) e escolher me especializar em outro campo: o da estilística. A maioria dos meus colegas nem sabia o que era isso.
— Estatística?
— Não. Estilística!
— Ah, aquilo de fazer vestido de noiva.
Quando eu tentava, humildemente, explicar que se tratava de estudar o estilo da palavra, a decepção era notável:
— Tanta coisa para fazer, e você fica dizendo se a palavra é feia ou bonita?!
De nada adiantavam meus solilóquios sobre funções, vícios e figuras de linguagem. Era inútil mostrar que há nome para quando se mescla sentidos, ou se fala de modo contraditório, ou se repete a última coisa que foi dita; sinestesia continuava sendo aquilo que o médico aplica para o paciente relaxar, oximoro permanecia uma marca de alvejante e anadiplose ainda era nome de uma tribo indígena do sul do Mato Grosso.
Os dias iam passando, e as pessoas insistiam em ignorar a pobre estilística, mas eu me viciava cada vez mais. Passei a fazer análise do discurso em simples conversas. Meu namoro terminou por culpa disso.
— Eu te amo do tamanho do mundo.
— Hipérbole!
— O que foi, gatinho?
— Metáfora!
— Dá pra parar de gritar alto?
— Pleonasmo!
— Faça isso mais uma vez e estes dedinhos vão balançar num ritmo de despedida.
— Eu... Eu...
— ?
— Eufemismo.
Solteiro, sentia-me socialmente sofrível e só conseguia pensar na aliteração que isso provocava. Foi nessa ocasião que alguns amigos me levaram para o bar da universidade e, por acaso, foi anunciado que já estava decidida a sede para a Copa do Mundo de 2014. O balconista exaltou:
— A Copa do Mundo está vindo para o Brasil!
Cheguei a emitir uma onomatopeia — boom! — quando ouvi essa maravilha de personificação. Já havia analisado personificações de todos os tipos: animais, objetos, roupas, astros, datas e até sentimentos. Mas uma prosopopeia de evento internacional era novidade para mim. Pude imaginar aquela festa toda, com estádio e gente e barulho e bandeiras e polissíndeto, dando corridinhas até chegar ao Brasil.
— Querem outra novidade? Acabaram de confirmar que as Olímpiadas também virão para a Cidade Maravilhosa!
Nem dei tanta importância para a perífrase relacionada ao Rio de Janeiro; a personificação, do mesmo tipo da anterior, estava presente novamente. E, enquanto eu pensava a respeito disso, tudo começava a se modificar: novos estádios, novos hotéis, reformas nas cidades, reforma nos próprios brasileiros.
Ocorria uma espécie de metonímia da vida real, a transformação do quase nada para o tudo, uma sinédoque do todo pela parte: o Brasil se modificava. Aí alguém comentou da tradicionalidade, se as cidades não perderiam seu valor histórico e cultural com tantas mudanças.
A pergunta não era dirigida exatamente a mim, mas confesso que só consegui, mais uma vez, pensar na estilística. Assim, responderia: a conotação não destrói o sentido denotativo; apenas o embeleza. Mas não consegui. Analisei meu pensamento, a metáfora que foi utilizada para construir outra metáfora.
— Metalinguagem! — berrei.
Adoro pensamentos estilísticos. Texto muito mais melhor de bom! (um pleonasmo hiperbólico?! rs)
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